Traduzido por Noreen Campbell de Aguirre (Instituto de Terapia
por Contingências de Reforçamento - Campinas), com
autorização da autora, para publicação
neste Boletim.
Nota da autora: Sou profundamente grata a J.W. Kling por seus
comentários e por sua ajuda no preparo deste trabalho. Correspondência
sobre este artigo deve ser endereçada para: Lauren M. Wier,
Email: Lauren_Wier@Alumni.Brown.edu.
Mary Cover Jones recebeu o título de "mãe da
terapia comportamental" (Mussen e Eichorn, 1988). Na década
de 20, como aluna de pós-graduação de John
B. Watson, Mary Cover Jones tentava eliminar o medo em crianças.
Jones aplicou uma variedade de técnicas, de maneira sistemática
e perspicaz, tais como "condicionamento direto" e "imitação
social", em ambiente experimental, e descobriu que o medo podia
realmente ser removido. Um exame das técnicas e descobertas
de Jones revela que seu trabalho sobre eliminação
de medo em crianças foi avançado para a época
e que sua lógica e sua metodologia continuam a ser elementos
centrais da terapia de modificação de comportamento.
Uma revisão dos progressos no campo da psicologia, antes
da pesquisa de Jones e de seu relacionamento com John B. Watson,
é útil para compreender as origens e a originalidade
do trabalho de Jones.
A virada do século XX foi um período de crescimento
e evolução rápidos no campo da psicologia.
A teoria psicanalítica de Freud, que alcançara nessa
época grande interesse, concentrava-se no inconsciente (Marx
e Hillix, 1963). De maneira totalmente contrastante, grande parte
dos trabalhos pioneiros (p. ex.: James, 1890) esperava utilizar
métodos de observação cuidadosa e o estudo
experimental da consciência para compreender os processos
mentais. A psicologia introspectiva ganhava popularidade como um
método científico e objetivo através do qual
um indivíduo poderia observar e descrever seus próprios
conteúdos conscientes. Titchener afirmava que tais conteúdos
podiam ser estudados como elementos da vida mental, da mesma forma
que os elementos químicos estavam sendo estudados (Titchener,
1910).
Em sua publicação de 1913, "Psychology as the
Behaviorist Views It" ("A Psicologia na Visão do
Behaviorista"[1])
, e em seu livro de 1925, "Behaviorism", John B. Watson
criticava a escola de psicologia introspectiva. Numa época
em que os campos da psicologia estavam se tornando progressivamente
mais controlados e sistemáticos (Kazdin, 2001), Watson se
opunha ao método introspectivo de estudo da mente, argumentando
não ser ele nem confiável, nem científico.
Ele encorajava a rejeição dos termos "mente"
e "consciência", em favor de ações
e ambientes que pudessem ser diretamente observados. Watson acreditava
que a psicologia estava passando por um momento decisivo e que deveria
concentrar-se no exame de comportamentos públicos e de condições
ambientais, a fim de alcançar uma compreensão sólida
do indivíduo e das questões afins.
Foi dentro desta recém-descoberta perspectiva científica
e comportamental que foi desenvolvido o estudo com o Pequeno Albert
(Watson e Raynor, 1920). No experimento de 1920, com Albert, Watson
e Rosalie Raynor tentavam determinar: (1) se era possível
condicionar o medo de um animal em uma criança, através
da apresentação simultânea do animal e de um
ruído alto e assustador.; (2) se esse medo condicionado poderia
ser transferido para outros animais ou objetos; (3) quanto tempo
o medo condicionado duraria; e, finalmente, (4) como tais respostas
condicionadas poderiam ser removidas experimentalmente.
Embora Pavlov só viesse a publicar um relato completo de
seus estudos sobre reflexos condicionados em 1927, Watson estava
a par dos relatos parciais anteriores: em seu discurso de 1916,
como presidente da American Psychological Association, Watson anunciou
que "os métodos de condicionamento de Pavlov eram a
nova ferramenta da psicologia" (Leahey, 1980, p.283). Watson
e Raynor ampliaram o paradigma de condicionamento clássico
de Pavlov, pareando um estímulo neutro com um estímulo
eliciador de medo e, depois de vários pareamentos, o estímulo
neutro eliciou uma resposta de medo. Watson e Raynor descobriram
que realmente podiam condicionar o medo em uma criança; o
Pequeno Albert, de nove meses, desenvolveu medo de ratos brancos,
depois de várias apresentações simultâneas
do rato e de um som alto e assustador. Além disso, determinaram
que o medo se transferia para outros animais e objetos inanimados:
o Pequeno Albert não apenas tinha medo do rato branco, como
havia desenvolvido também respostas generalizadas de medo
diante de um coelho, de um cachorro, de um casaco de pelo de foca,
do cabelo branco de Watson e de uma máscara de Papai Noel.
Em relação à duração da resposta
condicionada, o medo do Pequeno Albert diante de ratos, e dos outros
animais e objetos para os quais o medo se transferira, durou mais
de um mês, embora a intensidade da reação houvesse
diminuído (Watson e Raynor, 1920).
No entanto, Watson e Raynor não foram capazes de determinar
se as respostas condicionadas poderiam ser removidas, porque Albert
foi retirado do hospital antes do final do estudo. Eles concluíram
que as reações condicionadas de medo apresentadas
por Albert "têm probabilidade de persistir indefinidamente
no ambiente doméstico" e propuseram quatro maneiras
pelas quais o medo poderia ter sido removido experimentalmente (p.7).
Watson e Raynor sugeriram: (1) um método de habituação
em que a criança é repetidamente confrontada com os
estímulos condicionados; (2) um método de recondicionamento
em que o objeto condicionado é apresentado, enquanto zonas
erógenas (ou seja, lábios, mamilos e órgãos
sexuais) são estimuladas; (3) um método de recondicionamento
em que o indivíduo se alimenta enquanto o objeto produtor
de medo é apresentado; e (4) usando imitação
e conduzindo a mão do indivíduo em movimentos de manipulação
(Watson e Raynor, 1920). A última questão proposta
por Watson e Raynor em seu trabalho com Albert permaneceu sem resposta:
"Como respostas condicionadas podem ser removidas experimentalmente?"
Foi esse tópico que viria a cativar a jovem Mary Cover Jones
e a inspirar sua pesquisa sobre a eliminação de medos
em crianças, apenas alguns anos depois.
Durante a graduação, Jones freqüentou Vassar
College, onde foi despertado seu interesse pela psicologia e onde
se tornou amiga de Rosalie Raynor que, mais tarde, a apresentaria
a Watson, em 1919. Por sugestão de Raynor, Jones assistiu
a uma das palestras de Watson, na qual ele apresentou seu trabalho
com o Pequeno Albert, sobre emoções condicionadas.
Jones interessou-se imediatamente pela pesquisa de Watson, embora
admitisse comovida que ela própria "não conseguiria
ter sido levada a criar medo em uma criança" (Jones,
1974, p.581). Apesar disso, Jones e Watson tinham uma curiosidade
em comum; ambos estavam interessados em determinar se tais medos
poderiam ser removidos por procedimentos de condicionamento. Afinal
de contas, argumentava ela, "se medos podiam ser instalados
por condicionamento, como Watson havia demonstrado, não poderiam
também ser removidos através de um procedimento semelhante?"
(Jones, 1975, p.182). Como aluna de pós-graduação
no Teacher's College da Universidade de Columbia, trabalhando sob
a supervisão de Watson, Jones buscou a resposta para essa
questão. Jones publicou dois artigos em 1924, sobre a eliminação
de medos em crianças, nos quais mostrou como medos podiam
ser removidos experimentalmente.
[Continua]
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