"Uma imagem que pode representar a atuação
de Carolina[1]
é a de um ponto de luz, uma estrela, cujo núcleo,
constituído por sua consciência e coerência em
relação ao papel da ciência e dos cientistas
na sociedade, se irradia em inúmeras direções
de atuação. Essa, no entanto, é a única
associação possível entre Carolina e uma estrela:
seu comportamento pessoal
caracteriza-se antes por sobriedade,
moderação, discrição, muito trabalho
e pouco alarde." (Carvalho et al., 1998, p.26)
Minha última imagem de Dona Carolina é inesquecível,
como muitas outras: de pé, elegante e discreta, como sempre
se apresentava, ela estava voltada para uma platéia de centenas
de pessoas que a aplaudiam de pé! O dia era 15 de agosto
de 2004 e o evento era a sessão de encerramento do último
congresso na área de Psicologia de que ela participou: o
segundo congresso internacional da Association for Behavior Analysis,
realizado em conjunto com o XIII Encontro da Associação
Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental[2],
realizado em Campinas, São Paulo. Ela estava sendo aplaudida
não apenas por seu empenho e apoio ativo para a realização
daquele evento, mas sobretudo pelo valor simbólico daquele
momento, que coroava e reconhecia a excelência da análise
do comportamento no Brasil. Aquelas centenas de pessoas eram, no
mínimo, interessadas em ou simpatizantes da análise
do comportamento; uma grande parcela era composta por analistas
atuantes em muitas áreas do cenário nacional, todos
com uma história em comum: foram alunos de Carolina ou de
algum de seus muitos alunos (mais de 100 realizaram teses e dissertações
sob sua orientação). Uma outra parcela era constituída
por analistas do comportamento estrangeiros, que puderam conferir
a competência dos brasileiros, como cientistas e como organizadores
de um evento com aquelas dimensões. Quem esteve lá,
sabe do que estou falando. Sentada ao lado de Carolina, e vendo
seu sorriso sereno e seu aceno discreto, de agradecimento, eu me
lembro de ter pensado que aquela cena representava, em certa medida,
a magnitude dos efeitos da introdução da análise
do comportamento no Brasil, pela qual ela foi responsável,
juntamente com o Professor Fred Keller: aquelas eram pessoas preparadas
(ou em preparação) para investigar, ensinar e realizar
as promessas e as esperanças que dão ao desenvolvimento
da análise do comportamento o sabor de uma grande aventura,
que Carolina tanto apreciava. Pensei, também, que nossos
colegas do exterior certamente estavam podendo se certificar de
que o prêmio conferido a Carolina dois anos antes, durante
a Reunião Anual da ABA, em São Francisco, por sua
atuação na difusão internacional da Análise
do Comportamento, havia sido mais do que merecido[3].
Este, certamente, não foi um momento isolado na vida e na
carreira da Professora Carolina Martuscelli Bori: ela viveu uma
vida plena, produtiva e bem sucedida, dedicada com afinco e paixão
à Psicologia, em particular, e à ciência e à
educação, de modo geral. Ela tinha plena convicção
de que sem desenvolvimento científico não teríamos
saída para os graves problemas enfrentados pelo povo brasileiro.
Com uma ampla visão do seu espaço e do seu tempo,
sabia que a Psicologia era nada, se isolada do restante do movimento
científico do país e se dedicou plenamente a fazer
ciência, a preparar pessoas para fazerem ciência, a
gerenciar condições para que a ciência fosse
realizada e difundida. A Psicologia era sua paixão e a USP,
sua casa, mas sua generosidade se estendeu para muito além
dos limites dessa ciência e desta instituição
e ela soube compartilhar com centenas de pessoas, programas e instituições,
suas idéias e sua experiência e, sobretudo, o exemplo
de persistência e de apego a princípios.
[Continua]
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