Cientistas comportamentais por trás de Barack Obama
Por Hélder Lima Gusso, em 9 de abril de 2009
Faça download desse artigo em PDF clicando
aqui
“Estou lhe pedindo para acreditar.
Não apenas na minha habilidade
para promover mudanças em Washington…
Estou pedindo para você acreditar
na sua própria capacidade de mudar”
Barack Obama
(mensagem
em destaque na página oficial do presidente)
Change!
Mudança
é a palavra de ordem do Governo Obama. Mas o que é que
precisa ser modificado? As leis ou a burocracia de
Washington? As políticas públicas? O comportamento dos
governantes? Ou o comportamento de todo o povo americano?
Desde sua campanha, Obama deixou claro que as mudanças
que estava propondo implicariam em uma radical mudança
de referencial sobre o que é o Governo, sua função
social e a sua relação com o dia-a-dia do povo que
compõe a nação.
A revista TIME de abril de 2009 publicou reportagem
apresentando os fundamentos de parte daquilo que está
orientando a gestão de Obama para lidar com a mudança.
Não é de estranhar que uma grande equipe de psicólogos e
economistas comportamentais sejam as referências
orientadoras daquilo que está sendo proposto pelo novo
presidente.
A mudança de referencial, de um sistema econômico
Neoclássico para a Economia Comportamental, implica em
drásticas mudanças nas deliberações governamentais e na
relação entre Estado e cidadãos. Na Economia
Comportamental fica explicitado o grau de influência do
Estado sobre as decisões que cada indivíduo toma em seu
dia-a-dia. E isso assusta muita gente. Saber que o
governo, de certa forma, controla as decisões que
tomamos gera insegurança e desconfiança. Por outro lado,
no sistema econômico neoclássico, também não estamos
livres de controles. Mas esses, ao invés de serem
exercidos pelo Estado, ficam sob os cuidados dos
marketeiros e empresários que são livres para criar
estimulações ou tabus sobre o que parece ser “certo” ou
“errado”, “chato” ou “legal”, “in” ou “out”.
Somos humanos e qualquer uma de nossas decisões não é
“livre”, no sentido de isentos de influências múltiplas.
Levamos em consideração muitos aspectos para tomar uma
decisão, por mais irracional que ela possa nos parecer.
O que Obama ao adotar a Economia Comportamental como
referencial para suas deliberações está fazendo é
explicitar parte dessas influências que nos afetam e,
principalmente, criar condições que ajudem as pessoas a
optar por condutas mais compatíveis com aquilo que se
considera ser um bem para a cultura.
No artigo publicado na TIME há muitas limitações que
precisam ser identificadas e mesmo mal entendimentos do
que é a aplicação de principios comportamentais na
gestão pública. Por exemplo, ao final do texto, fala-se
que “não importa se as pessoas economizam energia para
salvar o planeta, para economizar dinheiro ou para fazer
igual ao seus vizinhos; mas apenas que de fato
economizem energia”. De um ponto de vista
comportamental, cada um desses motivos refere-se a um
comportamento diferente, por mais que o produto final
pareça o mesmo. Mas, se o plano de Obama é a construção
de um país melhor, será mais apropriado formar cidadãos
que identifiquem as consequências a longo-prazo de seus
comportamentos e que fiquem sensíveis a essas
consequencias a ponto de economizar energia para salvar
o planeta. Fica a dúvida se os problemas identificados
na reportagem são de mau entendidos da própria equipe de
Obama (o que, pessoalmente, considero pouco provável por
ser uma equipe altamente qualificada), ou de limitações
do jornalista que redigiu a matéria…
Apesar de todas as limitações que o texto possa ter,
ainda assim vale a pena examinar o que é esse novo
referencial no Governo de Obama e suas múltiplas
implicações. A construção de um país melhor passa pela
mudança de comportamento de seus membros. E é isso que
Obama parece estar tentando propiciar. O quanto suas
estratégias podem ser aperfeiçoadas, é um problema que
podemos avaliar…
.
Como Obama está usando a Ciência da Mudança
Faça download
desse artigo em PDF clicando
aqui
Artigo publicado na revista TIME em
abril de 2009 e traduzido por Hélder Lima Gusso com
colaboração de Murilo Garcia, Olavo Galvão e Angelo
Sampaio. Se você tiver sugestões de aperfeiçoamento ou
correções dessa tradução, envie para o email: heldergusso@gmail.com
Duas semanas antes do dia de eleição, a campanha de
Barack Obama mobilizou milhões de adeptos; era um pouco
tarde para começar a reescrever o get-out-the-vote (”GOTV”
- expressão
utilizada em língua inglesa para se referir a campanhas
pra estimular possíveis eleitores de um candidato a
votar, já que o voto é facultativo nos EUA.) .
“MAS, MAS, MAS…”, escreveu o diretor adjunto de campanha
Mike Moffo para a coordenação nacional de GOTV de Obama,
“…e se eu lhe dissesse que uma equipe mundialmente
famosa de gênios cientistas, psicólogos e economistas já
descreveram as melhores técnicas para um programa de
GOTV?!?! Vocês estariam interessados em, pelo menos, dar
uma olhada?” Claro que estariam!
Moffo
enviou orientações e um exemplo de programa formulado
por um conselho de cientistas comportamentais, um grupo
consultivo “secreto” formado por 29 eminentes
comportamentalistas dos EUA. A principal diretriz foi
uma mensagem simples: “Uma grande participação dos
eleitores é
esperada”. Isso porque estudos realizados pelo psicólogo
Robert Cialdini e outros membros de sua equipe que
tinham encontrado o mais poderoso motivador para que
clientes de hotéis reutilizem toalhas, para que os
visitantes de parques nacionais se mantenham nas trilhas
demarcadas e para que os cidadãos vão votar é a sugestão
de que todos estão fazendo isso. “As pessoas querem
fazer o que acham que outros irão fazer”, afirma
Cialdini, autor do Best Seller Influence (Influência).
“A campanha de Obama realmente teve isso.”
A existência deste dream
team (time
dos sonhos) de cientistas comportamentais - que também
incluiu os famosos Dan Ariely do MIT (Autor de
“Irracionalidade previsível”) e Richard Thaler e Cass
Sunstein da Universidade de Chicago, bem como Prêmio
Nobel Daniel Kahneman de Princeton - nunca foi divulgado
publicamente, apesar de seus membros terem apresentado
mensagens de apoio e doações públicas para a campanha de
Obama, bem como auxiliado em mobilização de eleitores.
Todas as propostas da equipe - entre elas a famosa
loteria online para arrecadação em que pequenos
eleitores concorriam à chance de ter um encontro
presencial com Obama - vieram com notas de rodapé
citando dados de pesquisas científicas relacionadas.
“Foi incrível ter estas propostas nos dizendo o que
fazer e a ciência por trás delas”, diz Moffo à revista
TIME. “Esses caras realmente sabem como fazer as pessoas
votarem”.
Presidente Obama continua confiando na Ciência
Comportamental. Mas agora sua Administração a está
utilizando para transformar o país. Pois quando você
sabe o que faz as pessoas irem votar, é muito mais fácil
ajudá-las a promover amudança.
O fator “empurrão”
Todos sabemos que Obama ganhou a eleição por parecer
mudança, soar como mudança e nunca parar sua campanha
por mudança. Mas ele não declarava mudança apenas em
Washington - ou mesmo mudança apenas nos Estados Unidos.
A partir de suas declarações de que “mudança vem de
baixo para cima” para suas advertências acerca de “uma
era de profunda irresponsabilidade”, Obama apelou à
mudança nos americanos [de seus comportamentos]. E não
apenas nos banqueiros e agentes de seguro - mas em todos
nós. Seu mantra “nós somos a mudança que estávamos
esperando”, pode parecer como um dialeto da hora, mas
estava de fato no cerne de sua agenda.
Na verdade, Obama está apostando sua presidência em
nossa capacidade de mudar nossos comportamentos. Suas
principais prioridades - economia, saúde e energia -
dependem disso. Temos de gastar mais dinheiro agora para
evitar uma depressão financeira a curto prazo e, em
seguida, guardar mais dinheiro mais tarde, para garantir
o futuro econômico de longo prazo. Temos que consumir
menos energia para reduzir as nossas importações de
petróleo e as emissões de carbono, bem como nossas
despesas domésticas. Precisamos parar de fumar e evitar
outros comportamentos arriscados que trazem danos à
saúde das pessoas e aumentam os custos dos cuidados de
saúde que estão devastando a “saúde fiscal” do país.
Basicamente, nós precisamos fazer melhores escolhas -
sobre hipotecas e cartões de crédito, seguros e planos
de aposentadoria - assim não precisaremos de ajuda pelo
caminho.
O problema, como qualquer pessoa que tenha um parente
guloso ou um alcoolista na família, ou que estoura
constantemente o limite do cartão de crédito sabe, é que
velhos hábitos são difíceis de mudar. A tentação é
forte. Nós somos fracos. Temos abundância de gurus,
apresentadores de TV e celebridades nos dizendo para
poupar energia, perder peso e viver com nossos próprios
recursos, mas ainda estamos dependentes do petróleo,
comida gordurosa e dívidas financeiras. É justo
perguntar se somos mesmo capaz de mudar.
Mas as descobertas recentes da ciência sugerem que sim,
nós podemos. Estudos de todos os tipos de fragilidades
humanas estão revelando meios para ajudar pessoas a
mudar - não só através de regras ou bonificações
financeiras, mas também por meio de sutis incentivos que
preservam a liberdade de fazer escolhas ao mesmo tempo
que nos encoraja a tomar melhores decisões, desde a
adesão a planos de aposentadoria (no original o autor
utiliza a expressão401(k), que
nos EUA representa um plano específico de aposentadoria
bancado pelas empresas e com incentivo fiscal do
governo) que nos exigem optar por poupar ou não por uma
boa aposentadoria a aparelhos que nos avisam quanta
energia estamos consumindo. Esses incentivos podem
desencadear grandes mudanças; em 2001, uma pesquisa
mostra que apenas 36% das mulheres aderiram a planos de
aposentadoria quando tinham que se inscrever por ele,
mas quando eram automaticamente inseridas em um plano de
aposentadoria [sem nenhum trabalho para se inscrever e
tendo a opção por não aceitar], 86% optavam por aderir
ao plano.
Não
é por acaso que o orçamento do Obama propõe um programa
ambicioso de matrícula automática em pensões aos locais
de trabalho que não oferecem planos de aposentadoria, ou
que seu pacote de estímulo econômico tem bilhões de
dólares destinados para aparelhos que controlam consumo
de energia. Ciência comportamental - em especial o
crescente domínio da economia comportamental que foi
popularizada pelos livros Freakonomics,
The Wisdom of Crowds, Predictably Irrational, Nudge and Animal
Spirits, que são os mais lidos no “mundo de Obama”
- já estão modificando dezenas de políticas
administrativass. “Isso realmente se aplica a todas as
grandes áreas em que precisamos mudar”, diz o diretor do
orçamento de Obama, Peter Orszag.
Orszag foi um descarado geek [excentrico]
comportamental desde que ele leu o estudo que embasa o
programa de aposentadoria “401 (k)”. Seu substituto,
Jeff Liebman de Harvard, é um importante economista
comportamental, como também são o conselheiro econômico
da Casa Brancaro Austan Goolsbee da Universidade de
Chicago, o Secretário Adjunto do Tesouro Alan Krueger de
Princeton e vários outros de seus principais assessores.
Sunstein, foi nomeado para ser regulamentador do governo
Obama. Mesmo o diretor do Conselhor Econômico Nacional
Larry Summers tem feito trabalhos em finanças
comportamentais. E o economista de Harvard Sendhil
Mullainathan está organizando uma rede independente de
peritos comportamentalistas para apresentar idéias
políticas à Administração Federal.
Obama aprecia a motivação humana relacionada à
organização social, e sua retórica muitas vezes soa como
se fosse extraída de um livro sobre comportamento. Ele
também leu o livro Nudge,
que inspirou-lhe para escolher o seu amigo Sunstein -
mais conhecido como um estudioso constitucional - para
coordenar o Serviço de Informação e Assuntos
Regulamentares, o obscuro mas influente departamento do
Instituto de Gestão e Orçamento Federal, onde as
regulamentações federais são revistas e reescritas.
“Cass é uma das pessoas na Administração que ele melhor
conhece”, diz Thaler, fundador do campo da economia
comportamental e co-autor do livro Nudge.
“Ele sabia o que estava fazendo quando deu a Cass esse
trabalho.”
O primeiro sinal da mudança comportamentalista no
governo veio à tona em 1 de abril, quando os americanos
começaram a receber 116 bilhões de dólares provenientes
de cortes de impostos de folha de pagamento pelo pacote
de estímulo a economia. Obama não está enviando o
retorno dos impostos pagos em apenas um cheque anual.
Razão para isso: o objetivo do pacote é incentivar os
gastos dos consumidores, e as pesquisas mostram que
somos mais propensos a poupar dinheiro ao invés de
gastá-lo quando recebemos uma grande quantia. Em vez de
entregar uma grande quantia única aos trabalhadores,
Obama assegurou que os cortes fiscais serão pagos por
meio de deduções graduais, de forma que o dinheiro chega
como um pequeno aumento no salário do trabalhador. A
idéia, explica um assessor, está em estimular as pessoas
a gastar o dinheiro extra.
Os
esforços de Obama para nos mudar, implica em um sério
risco político. Republicanos já rotularam como um
Estado-babá, como um elitista Big Brother nos ensinando
como encher pneu do carro ou que deve-se ler para nossos
filhos. Temos um presidente eleito, e não um treinador
para a vida (life-coach), e talvez não
queiramos que os funcionários eleitos desafiem nosso
direito de sermos preguiçosos e gastar muito tempo vendo
televisão [em inglês, couch
potatoes]
As intervenções de Obama parecem valorizar estratégias
que preservam mais a livre-escolha do que
regulamentações rígidas, concepção que Thaler e
Sunstein, co-autores de Nudge,
chama de “paternalismo libertário”. Mas, ainda assim,
continua sendo um tipo de paternalismo, e Sunstein terá
agora o poder de colocá-lo em ação. A idéia de que
funcionários públicos, ainda que bem intencionados,
tentem modificar nossos comportamentos individuais para
produzir mudanças pode nos parecer um pouco assustadora.
Encare isso: Obama
tem razão. Nossas emissões de carbono estão fervendo o
planeta e a maior parte da energia gasta é em
desperdícios. As despesas com Saúde estão quebrando as
Finanças do estado, e a maior parte dos motivos que
fazem as pessoas irem ao médico são relacionados a
comportamentos inadequados. Nós realmente precisamos
mudar, e sabemos muito bem disso.
Então, por que nós não mudamos? E como poderíamos mudar?
Os comportamentalistas tem idéias, e o Governo está
escutando.
Economia para o mundo real
Obama se comprometeu que a regulação do sistema
financeiro seria baseado “não em modelos abstratos… mas
no conhecimento disponível sobre como as pessoas
atualmente tomam decisões financeiras”. Está é uma forma
clara de dizer que essa regulação será orientada pela
economia comportamental e não pela economia neoclássica.
A economia neoclássica - Outra especialidade da
Universidade de Chicago - já tem governado nosso mundo
durante décadas. É a doutrina que os mercados melhor
conhecem: quando o Governo mantém suas mãos longe das
empresas, o capital migra para campos mais produtivos e
a sociedade prospera. Mas esse elegante modelo dependem
de uma ousada suposição: decisões racionais tomadas por
pessoas com interesses particulares criam mercados
eficientes. A Economia Comportamental contesta esse
pressuposto e o atual colapso financeiro acabou de
despedaça-lo de vez; mesmo o antigo presidente do FED
(Reserva Federal do Tesouro Americano) Alan Greenspan
confessou que a visão de mundo da Escola de Chicago foi
abalada. “Nós não poderiamos ter planejado melhor
campanha de marketing para Economia Comportamental.
A Economia Comportamental não ignora as forças do
mercado explicadas pela Economia (no original o autor
utilizada a expressão Econ
101. Nos currículos americanos a disciplina mais
básica de um curso geralmente tem o número 101, eEcon
101 refere-se
a formação básica em Economia), mas explicita
conhecimento tradicionalmente estudado na Psych
101 (nas
disciplinas de Psicologia). Os comportamentalistas
sempre souberam que, na verdade, homens não agem como o
modelo super-racional do Homo
Economicus da
visão de mundo neo-clássica. São anos de estudos sobre
pacientes que não tomam seus medicamentos, de adultos
que mantém relações sexuais sem proteção, além de várias
outras decisões imperfeitas dos homens que explicitam a
irracionalidade do Homo
Sapiens. Algumas de nossas irracionalidades são
muito específicas, tais como uma supervalorização das
coisas que temos, excessivos alimentos em grandes
depósitos, superestimar a probabilidade de eventos
improváveis - o que fez a a campanha de arrecadação de
fundos via loteria eletrônica “Conheça o barack Obama”
ser uma idéia inteligente. Mas, em geral, somos
ignorantes, míopes e temos tendência a manter o status
quo. Nós não somos tão inteligentes quanto Larry
Summers. Nós procrastinamos. Nossos impulsivos ids esmagam
a lógica de nossos superegos.
Planejamos perder peso, mas ooh - um bolo! Somos
especialmente irracionais em relação ao dinheiro;
pagamos mais pela mesma coisa se pudermos usar um cartão
de crédito, se pensarmos que está em promoção, ou se é
comercializado junto a fotos de mulheres bonitas. Não é
de estranhar que solicitamos financiamentos que não
podemos pagar. Não é de estranhar que nossos banqueiros
aprovam tais financiamentos.
“Nós realmente queremos fazer melhores escolhas”,
explica o economista Dean Karlan de Yale. Ele é
co-fundador da stickK.com, em que usuários fazem
“contratos de compromisso” para dar dinheiro pra
caridade ou amigos - ou mesmo para “anti-caridade” que
eles desprezam - caso não consigam atingir seus
objetivos pessoais como parar de fumar e perder peso.
“Mas nós precisamos de ajuda para conseguir conquistar
nossos objetivos”.
A Necessidade de saber
O
primeiro passo é o conhecimento. Estudos sugerem que
melhores informação - sejam a partir de anúncios de
serviço público, representadas por personalidades
respeitadas, ou mesmo em novelas para ajudar a reduzir
gravidez na adolescência e outros males sociais nos
países em desenvolvimento - pode nos ajudar a fazer
melhores escolhas. Houve uma corrida atrás de lâmpadas
com melhor eficiência energética após Oprah indicar aos
espectadores de seu programa para comprá-las, do mesmo
modo, a hora na Casa Branca de Michelle Obama estimula
pessoas aos produtos frescos. Nós não percebemos que
deixar nossos carros em marcha lenta consome mais
energia do que liga-los e desliga-los, ou que a granola
é rica em gordura. E algumas das nossas escolhas são
simplesmente confusas, e é por isso que é tão fácil de
tropeçar em taxas ocultas e pagamentos de balões
durante um financiamento. Mesmo doutores podem se
confundir com toda a papelada de nossa sociedade; Thaler
e Sunstein contar uma história em Nudge sobre
a luta de um economista saudável para conseguir
prescrição de remédios para seus pais.
Nudge valoriza
rígidas regras de divulgação e de clareza, para nos
ajudar a tomar decisões mais fundamentadas sobre
empréstimos para habitação, empréstimos pra financiar
educação, cartões de crédito, planos de saúde e planos
de aposentadoria. Thaler cita uma ordem executiva,
assinada por Obama em seu segundo dia no cargo, em que
solicita uma nova transparência nos processos por meio
das novas tecnologias. “Isso é exatamente o que estamos
a falar”, diz Thaler. “Se em vez das 30 páginas de uma
porcaria inteligível que vem com uma hipoteca, você
puder carregá-lo com um clique em um site que irá
explica-lo e ajudá-lo a avaliar as alternativas, o
processos se torna tão fácil quanto fazer uma compra
qualquer.”
Mais informações podem nos tornar mais saudáveis, razão
pela qual o pacote de estímulo financeira destinou $ 1,1
bilhões em pesquisas para comparar eficácia de
intervenções. Orszag tem pilhas de gráficos que
evidenciam que os procedimentos médicos e seus custos
variam amplamente em todo o país, mas com pouca clareza
sobre o que de fato funciona em saúde pública. Ele
pretende documentar as melhores práticas - desde lista
de procedimentos em salas de emergência que reduzem
drasticamente quantidade de infecções, a protocolos para
avaliar quando novos testes ou cirurgias podem de fato
ajudar - e, em seguida, implantar tais práticas em todos
os serviços médicos públicos. Essa concepção já ajudou
os anestesiologistas americanos a reduzir mortes, bem
como custos.
Ainda assim, somente informação não é o suficiente para
a mudança. Todos nós já sabemos que não devemos fumar ou
se entupir de doces, mas o conhecimento não é tão
poderoso quanto a motivação; mesmo Summers precisaria
perder alguns quilos. Velha piada comportamentalista:
Quantos psicólogos são necessários para trocar uma
lâmpada? Resposta: Apenas um, mas a lâmpada realmente
precisa querer ser trocada.
Tem que ser fácil
Econ 101 (disciplina básica de economia em cursos de
graduação) ensina que são os preços dos produtos que
promovem mudanças, e é verdade que cobrar 4 dólares pela
gasolina nos levaria a dirigir menos. Mas os preços não
são tudo.
Essa é a razão pela qual as alternativas que parecem ser
o padrão tem tanto poder. A maioria de nós poupará
dinheiro para a aposentadoria, executará o computador no
modo eficiente de energia e será doador de órgãos se
tiver que agir para não fazê-los - mas não os faria se
tivesse que tomar alguma medida para fazê-los. Por
exemplo, a alguns anos atrás, quase ninguém optou por um
serviço alemão de energia limpa até que ele se tornou o
padrão. Quando isso aconteceu, 94% da população começou
a utilizá-lo. É mais provável que a pessoa vá ao médico
para cuidados preventivos, como tomar vacina contra a
gripe, se já tiver um horário marcado para fazê-lo. Em
um discurso no ano passado, Orszag chegou a sugerir que
tivessemos sistema de marcação automática de consultas
médicas para a população, tendo a opção de desmarcar a
consulta. O próprio Orszag admitiu que isso pode
parecer “um pouco esquisito a primeira vista, ou mesmo a
segunda vista”, mas o fato é que funciona.
Mas idéias como essas estão para começar. O Governo
espera fazer uso da inércia das pessoas para implantar
os planos automáticos de pensão, um passo importante
rumo a contas de poupança universais, e para diminuir
drasticamente a quantidade de requisições de americanos
por ajuda financeira do Governo Federal. O esforço pela
informatização dos registros de saúde da população -
outro importante item do pacote do governo - podem
melhorar a relaçao custo-benefício dos procedimentos e
medicamentos utilizados em tratamentos. Os idosos que
não escolheram planos de saúde ou planos de medicamentos
(recurso disponível nos EUA) poderiam ser
automaticamente inscritos em planos de baixo custo.
“Seria bom se todos nós se comportassem como
supercomputadores, mas isso não é como nós somos”, diz
Orszag.
Enquanto a equipe econômica de Obama procura por
soluções indolores, rápidas e fáceis para nossos
instintos sem fáceis explicações, seu discurso
frequentemente explicita a importância de nos
prepararmos para tolerar algum grau de dor e incómodo.
Ele nos convida a não ocultar as pressões, a aceitar que
nós estamos em um prolongado desconforto mas sem se
acostumar a ele, e para focar em nossos valores. Issoé
muito similar com as premissas básicas da “terapia da
aceitação e compromisso” (ou ACT), um dos mais recentes
avanços na Psicologia Comportamental. Em vez de ajudar
fumantes a ignorar seus vícios ou a pessoas que sofrem
dor-crônica a pensar em outras coisas - a velha
abordagem da negação - a “terapia da aceitação e
compromisso” ensina pessoas a identificar seus
pensamentos negativos e, em seguida, a superá-los,
concentrando nos valores importantes para a pessoa. Um
rápido exame dessa forma de terapia mostra que parece
estar ajudando fumantes a parar, obesos a perder peso,
pacientes com dor crônica e diabetes a permanecer sem
necessidades de internação em hospitais. O psicólogo
Steven Hayes, da Universidade de Nevada em Reno,
acredita que nossa cultura de prozac tem nos ensinado a
evitar qualquer desconforto, deixando-nos relutantes em
exercer ou ajustar nossos “termostatos”. Nós
supostamente vivemos para estar sempre felizes” (happy-happy-hoo-hoo),
diz Hayes. “Obama está tentando nos ajudar a superar
isso”.
Mas Obama não é um terapeuta mudando indivíduos, um de
cada vez. Ele é um gestor público tentando construir uma
comunidade e a inspirar ações coletivas por meio de
pequenos grupos ou por recursos tecnológicos como o
Facebook, bem como por meio de seus discursos sobre os
valores partilhados pela nação. Em outras palavras, ele
está tentando criar normas sociais - promover mudanças
comportamentais de larga escala no país.
Todo mundo fazendo!
Que mensagem seria mais apropriada para moradores
economizarem energia elétrica: um apelo à sua
consciência ambiental, ou um apelo à sua carteira?
Cialdini testou essas estratégias em um experimento na
cidade de San Diego e a resposta foi: nenhuma delas. O
que funcionou foi um apelo à “conformidade”. Os
moradores utilizaram menos energia quando disseram a
eles que seus vizinhos estavam consumindo menos energia.
Somos membros de uma espécie gregária, mais propensos a
sermos obesos se as pessoas importantes para si também o
são.
Alan Gerber de Yale em um estudo em 2005,conseguiu
aumentar incríveis 8,6% da participação dos eleitores de
Michigan nas eleições, por meio de uma única carta com
“pressão social” que dizia haver um registro da
quantidade de participação da vizinhança em eleições
passadas e que na próxima eleição também seria mensurada
a participação da vizinhança e que um relatório
indicando quem votou nessa eleição seria enviada a
todos. (A campanha de Obama chegou a cogitar enviar
carta semelhante, mas decidiou não correr o risco de uma
reação negativa). E a vergonha também funciona; Mesmo
alguns executivos da AIG devolveram seus bônus
[financeira que recebeu dinheiro do Governo e o
distribuiu sob forma de bônus a seus executivos
deflagrando um escândalo nacional]. Cialdini relata que
imagens do cérebro mostram que quando pensamos estar
fora de passo em relação a nosso pares, a parte do
cérebro que registra dor apresenta atividade mais
frequente. “Isso é um incrivelmente poderoso incentivo a
ação”, diz ele.
As normais sociais ajudam a explicar porque as pessoas
não optam por sair de um 401(k) [plano de aposentadoria]
quando este é oferecido automaticamente: Não é apenas
por sermos demasiadamente preguiçosos para marcar um “x”
em um formulário, mas por crer que o padrão é a coisa
certa a fazer. O incentivo de Obama por investimentos em
calefação para milhões de lares - outro incentivo a
gastança - exigirá novas normas. Em Oregon, um programa
de incentivo para a troca de janelas e isolamento
térmico para casas sem quase nenhum custo tem uma
resposta morna. Mas após uma intensa campanha de
mobilização realizada por conselhos comunitários,
igrejas, grupos de escoteiros que batiam de porta em
porta perguntando porque as pessoas ainda não tinham
isolamento térmico - 85% das casas no estado foram
inscritas no programa. “O que funcionou foi criar um
sentimento de que estamos todos juntos nesta e que você
será um desviante se não se juntar a nós”, lembra Ralph
Cavanagh do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.
Esta é a razão pela qual cartões, jornais comunitários
ajudam a promover prevenção de saúde e porque
competições de conservação ambiental entre dormitórios
[prêdios em que moram estudantes] ajudam colégios a
poupar energia. E é por isso que os funcionários do
Governo - depois do efeito “manada” de pessoas retirando
desesperadamente seus dinheiros dos bancos com medo que
quebrem, citado no livro Animal Spirits - tentam
aumentar a confiança dos consumidores em uma norma
social.
Às vezes precisamos de um empurrão
Mas provavelmente nós não gastamos se não tivermos
dinheiro. Assim como não é viável utilizar transporte
público se não houver nenhum em nosso bairro. O bully
pulpit [local
em que qualquer cidadão tem voz para reclamar de
problemas públicos para o Governo. Talvez equivalente as
sessões abertas nas câmaras de vereadores no Brasil] tem
seus limites - Michelle Obama literalmente tem
incentivado o consumo de brócolis, mas ela não tem como
faze-lo ter gosto de um delicioso brigadeiro. “Eu adoro
nugets, mas as vezes precisamos de mais do que isso”,
diz Mullainathan de Harvard. As vezes precisamos de um
empurrão. As pesquisas mostram que a mudança pode
acontecer quando é fácil e popular, mas torná-la
lucrativa - ou até mesmo obrigatória - pode fazê-la
acontecer com mais certeza.
Esta é a razão pelo recente interesse do Estado na
tributação da gasolina, bebidas alcoolicas, eletricidade
e até mesmo em produtos com gordura trans para
desencorajar comportamentos inadequados enquanto ao
mesmo tempo se fecham as lacunas no orçamento. Obama já
elevou os impostos sobre cigarros e tem planos para
acabar com a ausência de impostos para a extração de
petróleo e para offshoring [internacionalização
da produção de bens, visando mão de obra e impostos
menores em outros países, como a China]. Obama parece
estar ainda mais ansioso para diminuir a carga de
impostos sobre comportamentos desejáveis como poupar
dinheiro, atividades relacionadas ao ensino,
climatização de ambientes, compra de carros eco-eficientes
e de equipamentos que economizem energia. Obviamente,
sua política energética vai além de incentivos; quer uma
rigorosa limitação na quantidade de emissões de carbono.
Obama também já sinalizou o criação de um programa
nacional de plano de saúde obrigatório para todos os
americanos.
Se o modelo econômico neoclássico solicitava que o
Governo nos deixasse em paz para fazer o que queremos, a
Economia Comportamental abre espaço para o Governo nos
ajudar a fazer aquilo que faríamos se fossemos pessoas
racionais. Infelizmente, as características que tem
detonado Washington nos últimos anos - inércia, negação,
alergia a complexidade, preferência pelas gratificações
a curto-prazo ao invés dos planejamentos a longo-prazo -
são nossos próprios pontos fracos. Os membros do
Congresso também são pessoas; eles provavelmente também
aceitam mudanças apenas quando são fáceis, populares e
gratificantes. Nós realmente queremos que eles tentem
nos mudar?
Michelle Obama nos advertiu durante a campanha,
“[Barack] vai exigir que você acabe com seu cinismo, que
você deixe para trás suas fragmentações, que você saia
de seu isolamento, que você saia de sua zona de conforto,
que você torne a si próprio uma pessoa melhor”. O
presidente enfatizou isso em seu discurso de posse,
quando pediu aos americanos superar problemas infantis e
escolher a esperança ao invés do medo.
Mas nós não precisamos mudar nossos corações assim.
Planos de aposentadoria, aplicações financeiras simples,
termostatos programáveis e protocolos médicos mais
eficientes e com menores custos podem nos ajudar a fazer
as coisas certas mesmo que continuemos a ser ignorantes,
preguiçosos, gananciosos ou infantis. Não importa se
poupamos energia porque nos preocupamos com a Terra, com
o próprio dinheiro, ou com nossos vizinhos; o que
precisamos é economizar energia. O Governo precisa
fornecer as regras certas, os incentivos e empurrões
para nos ajudar a fazer escolhas certas. Será muito bom
se Obama conseguir mudar nossas normas sociais para que
formas mais sustentáveis e ecológicas de vida,
alimentação saudável e uma maior responsabilidade
financeira sejam a nova identidade do povo americano.
Mas para isso não basta mudar as leis em Washington.
Nós precisamos de melhores políticas, não melhores
atitudes.
A literatura comportamental nos ajuda a enxergar a
loucura humana, e conhecer essa loucura pode até nos
deprimir. Mas essa literatura também nos oferece meios
de transcender a nossa loucura, meios mais efetivos para
lidarmos com nossos ids,
para superar nossa conformidade, inércia e fraqueza,
para deixarmos de fazer coisas que farão mal a nós
mesmos e a nossso país. “No mundo físico, nós
compreendemos nossas limitações”, diz Ariely. “Ninguém
fica chateado por não podermos voar. Simplesmente
pojetamos algo para nós ajudar a voar.” Se Obama nos
ajudar a voar para superar nossos maus hábitos, ele vai
proporcionar a mudança que precisamos.