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1987. Há dois anos eu
era professor de uma das mais respeitadas universidades
brasileiras: a PUC de São Paulo. Um sonho para qualquer pessoa
que se arvorasse por uma vida acadêmica. Dentre as inúmeras
crises financeiras pelas quais a PUC-SP já havia passado e com a
decorrente inquietação política que isso sempre acarretou,
discutia-se a estadualização da universidade. Eu, às portas do
doutoramento, não sabia muito bem que rumo minha carreira iria
tomar.
Assim como veio, a
crise da PUC permaneceu, e como bons humanos, todos nós nos
habituamos a ela (eu, inclusive). Em 1988 tornei-me doutor, e
participava de uma das equipes de Análise do Comportamento mais
fortes que o Brasil já pode encontrar. Tínhamos na equipe,
especialistas em educação, em clínica, em pesquisa básica,
aplicada e todos com atuação marcada em análise do
comportamento.
Mas estávamos
inseguros ainda com o caminho da universidade e resolvemos
conversar a respeito de possibilidades. Reunimo-nos por uma ou
duas vezes, e, como resultado de várias discussões foi aventada
a idéia de fazermos um instituto que tivesse como foco primário
de obtenção de recursos, um trabalho aplicado sobre o insucesso
escolar de crianças e adolescentes. Pegaríamos crianças com
insucesso escolar, e faríamos um bom currículo especialmente
talhado para elas e atenderíamos em clínica as questões
emocionais oriundas do fracasso, e faríamos orientação a pais.
Seria então uma escola, que teria acoplada a ela uma clínica,
que se ocuparia de cuidar de repertórios de fracasso escolar,
atendimento em clínica, orientação a pais, e ainda poderíamos
realizar pesquisas e, por que não, formar analistas do
comportamento.
Tudo ia bem enquanto
idéia até que chegamos ao ponto para o qual nenhum de nós tinha
a menor habilidade: “vender” o produto. Paramos de discutir e
nunca mais voltamos ao assunto. Mas a idéia não parou de
martelar na minha cabeça. Sempre me pareceu uma ótima idéia.
Corta!
1991, em minha turma
de comportamental, tive a oportunidade de ter como aluna uma
garota com aparência tímida, mas extremamente inteligente e
forte em suas opiniões, ao mesmo tempo de uma doçura notável,
revelada por meio de seus olhos azuis profundos. Seu nome:
Roberta Kovac. Meio de longe, meio de perto, nossos caminhos vão
se seguindo paralelos com alguns cruzamentos nos próximos anos
1992. Primeiro dia de
aula de Comportamental I. Estou apresentando o curso, quando
chega atrasado e pedindo desculpas por isso, um garoto agitado
que senta e começa a fazer perguntas. (eu não sabia ainda que
ele não estava agitado apenas porque tinha chegado atrasado: ele
é sempre assim!). O garoto fazia perguntas muito interessantes:
perguntas de quem enxergava longe. E eu, fiquei de olho na
visão dele.
Em dois anos, Denis
Zamignani (sim, era ele) já era meu orientando de iniciação
científica. Nas diversas orientações interrompidas por idas à
padaria onde eu, entre outras coisas, o ensinava a tomar café
(que ele detestava) e insistia que uma pessoa não podia andar
sem dinheiro no bolso (o que até hoje ele me prova que é
absolutamente possível), fui dizendo a ele sobre o sonho da
escola que seria uma clínica, e uma instituição de pesquisa e
formação de profissionais de análise do comportamento. Enquanto
isso, desenvolvíamos seu projeto de pesquisa, que foi
rapidamente acoplado ao projeto de trabalho de conclusão de
curso que Roberta Kovac estava desenvolvendo. Nesses projetos, a
preocupação básica era a formação do terapeuta comportamental.
Denis e Roberta fizeram alianças, criaram com outros amigos um
curso e uma instituição para acompanhantes terapêuticos (o
Perspectiva), e partilharam das mesmas preocupações que eu.
Denis formado foi
dividir comigo a sala de atendimento que eu tinha no conjunto da
Regina Wielenska.
O projeto de iniciação
científica que havia feito parte da carreira da Roberta e do
Denis foi tocado por uma revolução ruiva na minha vida: Joana
Singer Vermes. Na mesma época em que desenvolvia sua iniciação
científica comigo, Joana fazia sua formação em AT no
Perspectiva, com Denis e Roberta. Mais uma ligação estava sendo
feita, tanto que até hoje Denis e eu reclamamos a conquista de
Joana para nosso grupo. Eu deixo que ele pense que foi
responsável por isso...
1996 e 1997 – Cai
sobre minha cabeça a presidência da ABPMC. Denis, enquanto
secretário da associação, era meus dois braços. Começam a
aparecer pelo Brasil propostas de cursos de formação em terapia
comportamental, que ainda pareciam estranhas à comunidade. As
conversas entre Denis e mim eram cada vez mais freqüentes sobre
a necessidade de uma formação que desse aos analistas do
comportamento um proceder com maior solidez do que se via até
então.
Depois disso, monto
com Denis, Joana, Lugui (Luiz Guilherme Gomes Cardim Guerra), e
Ricardo (Correa Martone), um novo consultório em Perdizes.
Paralelamente, saído
da presidência da ABPMC, fui fisgado pela minha equipe de
comportamental (especialmente Amália, Nilza e Téia – “a ordem é
meramente alfabética”) para a confecção do Programa de Estudos
Pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do
Comportamento pela PUC. Avaliávamos que havia um trabalho
sólido na formação dos nossos meninos e os “perdíamos” para
outras instituições na hora da pós-graduação. A elaboração do
projeto do programa foi um trabalho duro, árduo, com muita
discussão, e com muita satisfação.
1999 – Lançamento do
curso de pós-graduação: não à toa, Roberta e Denis participam da
primeira turma. Não à toa, Joana participa da segunda turma.
Roberta e Joana continuam sendo minhas orientandas. O curso e as
diversas atividades de orientação dele oriundas me fazem
acalentar mais uma vez a possibilidade de criar um instituto de
formação profissional.
2003 – Na PUC, a
equipe de comportamental já tinha uma intensa atividade na
graduação, com Iniciação científica e uma grande massa de
monitores sendo formados por nós. O Programa de pós estava
consolidado e chegando à sua 100ª defesa. Minha avaliação era de
que era hora de começar a expandir a abordagem dentro da
universidade e chegar à extensão universitária.
Debruçamo-nos, Denis,
Joana e eu na elaboração de um projeto de especialização para
ser oferecido pela PUC. Novamente idas e vindas com pedidos de
formulação e reformulação. Projeto melhorado por todas as
exigências e um corpo docente de primeira linha, alimentado
basicamente por professores doutores da PUC e da USP, vários
mestres em Análise do Comportamento pela PUC, e todos eles bem
formados em terapia comportamental. Quase todos esses mestres já
eram abrigados em uma clínica que Denis e eu administrávamos.
Estávamos agora, em uma casa, 12 terapeutas comportamentais
atendendo, e quase todos envolvidos no curso de especialização
que foi lançado pelo COGEAE em 2005, com coordenação minha e do
Denis.
A PUC-COGEAE exigia o
número mínimo de 35 inscritos para autorizar o funcionamento do
curso. Obtivemos apenas 11 inscrições e o curso foi cancelado...
Era 03 de março de 1995.
Ao sabermos da
notícia, tivemos 5 minutos de depressão profunda. Depois de
tanto trabalho, iríamos “morrer na praia”. Passado esse período,
olhei para o Denis com aquele olhar de “você está pensando no
que eu estou pensando?”. Sim, ele estava...
Começava a nascer o
Paradigma... Em um mês abrimos a empresa, alugamos uma salinha,
abrimos novas inscrições, elaboramos contratos de trabalho,
fizemos cálculos, compramos cadeiras, enfim... Tantas coisas que
seriam infindáveis de serem contadas. Em 05 de abril de 1995,
abrimos nossa primeira turma. Iniciava agora, na realidade, o
sonho por tanto tempo acalentado. Abria as suas portas o
Paradigma – Núcleo de Análise do Comportamento.
Já para a ocorrência
da primeira turma, precisávamos oferecer aos alunos que não
tinham consultório o espaço para atenderem, e clientes.
Começamos então a nossa “integração” com a comunidade do nosso
entorno. Captamos clientes que eram isentos de pagamento para
serem atendidos pelos alunos da especialização.
Dessa primeira turma,
formamos 8 terapeutas analítico-comportamentais (nomenclatura
adotada por analistas clínicos do comportamento no Brasil em
reunião realizada em São Paulo, no Paradigma). Vários deles
passaram a atender em nossas dependências.
Minha preocupação com
a formação contínua dos professores do Paradigma e com a
atualização dos terapeutas que trabalhavam conosco fizeram com
que mais uma vez uma idéia brotasse de uma das raras noites de
insônia que tenho: o lançamento dos Tópicos Avançados. Fruto
dessa preocupação e mais da solicitação da Zilah (Brandão), da
Fatiminha (Conte), da Regina (Wielenska) e da Yara (Ingberman),
para que nós criássemos um curso que nos fizesse estudar, os
encontros dos Tópicos Avançados foi uma idéia que me agrada
muito. Nele, convidamos uma vez por mês, um especialista em
algum tema de ponta” para nos ensinar as atualidades de sua
área, além de discutirmos casos clínicos trazidos por nós
mesmos.
Veio a segunda turma,
e Denis e eu percebemos que não agüentaríamos o tranco da
coordenação sozinhos. Não ao acaso, as convidadas para
participarem dessa empreitada foram Roberta e Joana. Trabalhos
conjuntos de anos a fio eram agora consolidados em torno do
projeto maior.
Ao final da formação
da segunda turma, recebemos a avaliação positiva do Conselho
Federal de Psicologia como uma instituição que pode certificar
seus alunos como especialistas em psicologia clínica.
Criamos também um
sistema de bolsa atendimento para que nossos alunos pudessem
pagar menos: captamos clientes de população que pudesse pagar o
piso da classe por sessão, e cobramos esse valor do cliente. Ele
é atendido pelo nosso aluno de especialização que tem supervisão
nossa durante o período em que estiver atendendo esse cliente, e
metade do que captamos é abatido da mensalidade do aluno. Com a
possibilidade de atender até 3 clientes nesse esquema, o nosso
aluno pode ter uma bolsa de quase 50% em sua mensalidade.
Era hora agora de dar
mais um passo em direção à integração: trazer mais ativamente a
comunidade para dentro do Paradigma. Foi lançado, então, o Cine
Paradigma, que se propõe a ser uma atividade na qual um tema do
dia-a-dia é discutido por algum psicólogo analista do
comportamento por meio de uma história contada em um filme
conhecido. Cada membro da platéia traz a título de “pagamento”,
um quilo de alimento não perecível, que é distribuído para as
instituições de caridade de nosso entorno.
Ainda para oferecer
mais oportunidades de publicação em Análise do Comportamento,
foi criada a Editora Paradigma que conta por enquanto com apenas
um título: “A Clínica de Portas Abertas”, iniciativa mais uma
vez, do Denis, Roberta e Joana.
A partir da daí as atividades do Paradigma só vêm crescendo.
Temos hoje vários ex-alunos trabalhando conosco (somos 22
terapeutas e acompanhantes terapêuticos de formação
analítico-comportamental
e um psiquiatra),
duas turmas concomitantes de especialização, um curso de
formação de Acompanhantes Terapêuticos, que para a próxima turma
já conta com 30 inscritos, curso de Terapia de Casal e Família,
grupos de estudo sobre OBM, Orientação Profissional, Orientação
para o Estudo, serviços de ATs em várias áreas (de problemas
psiquiátricos a idosos) e cursos esporádicos sobre temas
diversos, incluídos aí Psicologia do Esporte, Terapia Infantil,
Ansiedade... Nossa equipe de professores e supervisores é de
primeira linha,
e estamos cuidando também para que nossos ex-alunos possam se
tornar professores e supervisores, instituindo agora a figura
dos monitores em nossas disciplinas.
Por um cuidado
excelente e herança de uma breve passagem de João Ricardo Pedro
conosco, temos uma parceria com a Associação Viva e Deixa Viver,
como nossa participação em responsabilidade social. A “Viva” é
uma associação que treina contadores de histórias para darem
alento em leito de hospital a crianças portadoras de HIV. Nossa
atuação é oferecer apoio psicológico aos contadores de história
e ceder nosso espaço para alguns cursos que o “Viva” está
programando para seus freqüentadores.
Por fim, com o intuito
de reconhecer e incentivar a produção em análise do
comportamento no Brasil o Paradigma instituiu o Prêmio
Paradigma, cuja entrega dar-se-á em 05 de julho de 2008. Foram
instituídas 4 modalidades de Prêmio: trabalho de conclusão de
curso de graduação, monografias de cursos de especialização,
dissertação de mestrado e tese de doutorado. Foram convidados
como pareceristas os maiores expoentes da Análise do
Comportamento do Brasil para comporem a comissão julgadora dos
trabalhos inscritos. Outra ação no sentido de reconhecer o
trabalho das instituições de Análise do Comportamento, somos um
instituto afiliado e contribuinte com a ABPMC.
Enfim, é uma história
de longa data, mas ainda com muito a construir. Nós do Paradigma
estamos muito satisfeitos com ela.
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