|
A aproximação da analise do comportamento com o esporte e com a
atividade física ocorreu já no início da década de 70. Segundo
Martin e Tkachuk (2001) o marco do início da psicologia
comportamental do esporte foi a publicação do livro O
desenvolvimento e controle do comportamento no esporte e
educação física de Brent Rushall e Daryl Siedentop, em 1972.
Já naquela época os autores propunham diversas estratégias para
modelar, manter e generalizar habilidades esportivas.
Posteriormente Siedentop direcionou-se para a educação física
enquanto Rushall focou seus trabalhos junto ao esporte.
No contexto
do desenvolvimento da analise aplicada do comportamento foram
pesquisas de condicionamento operante do comportamento verbal,
nas décadas de 50 e 60, que forneceram uma ponte direta entre os
métodos de investigação de laboratório e aplicações como a
psicoterapia e a educação, inicialmente (KAZDIN, 1978). Em
outras palavras: a partir de pesquisas com o comportamento
verbal o analista do comportamento teve acesso ao trabalho com
tipos de repertórios complexos considerados tipicamente humanos.
Este passo possibilitou o desenvolvimento de tecnologias
comportamentais para o manejo de variáveis em outros ambientes
além do laboratório. O analista do comportamento, então, passou
a aplicar os princípios de laboratório em ambientes com um menor
isolamento de variáveis, porém com uma maior relevância social
na medida em que se aproximava da solução de problemas do
cotidiano humano. O esporte foi um dos campos contemplados neste
período. Rubio (2000) aponta para o grande desenvolvimento
acadêmico e aplicado da psicologia do esporte justamente nas
décadas de 60 e 70.
A divisão do campo de atuação, entre esporte e educação física,
merece algumas considerações. O termo “esporte” tem sido
utilizado de forma bastante abrangente, abarcando toda forma de
atividade física. Segundo Scala (2000) podemos dividir a atuação
junto ao esporte em quatro campos específicos: alto-rendimento;
educacional; reabilitação; e recreação ou tempo livre.
O esporte de alto-rendimento pode ser caracterizado como aquele
que envolve competição (DE ROSE JR., 2000) e tem como objetivos
a superação de marcas ou índices e a obtenção de títulos. Não
necessariamente estamos falando de saúde na medida em que a
busca pela superação, muitas vezes, leva os organismos dos
atletas alem dos seus limites. O esporte de alto rendimento é,
também, caracterizado em muitos países por um alto investimento
e envolvimento de organizações (como a FIFA e a CBF no futebol)
que possuem amplos poderes quanto ao controle das pessoas à elas
submetidas. O trabalho no analista do comportamento neste campo
é, resumidamente, a análise do desempenho esportivo e das
variáveis das quais é função e, a procura pela melhoria deste
desempenho.
Ao tratarmos especificamente do esporte de alto rendimento
pode-se dizer que a aproximação com a análise do comportamento
foi facilitada por alguns fatores relacionados às semelhanças
tanto na mensuração como na manipulação de comportamentos
(MARTIN, 2001). Como se a folha de registro do analista do
comportamento estivesse para o scout utilizado pelo
técnico para avaliar o desempenho de seus atletas. Neste sentido
o registro de respostas no esporte torna-se importante para
avaliação de linha de base em um desempenho atlético, a qual ira
contribuir para a escolha de técnica(s) apropriada(s) e da
avaliação posterior dos seus resultados em termos de mudanças
comportamentais.
Já o esporte
educacional engloba desde a atividade física para alunos de uma
escola até projetos sociais que utilizem o esporte como
metodologia de ensino. Em um caso como no outro, a atividade
física pode ser utilizada para ensinar repertórios
comportamentais de cuidados com a saúde, discriminação de
estados internos e de socialização. Portanto, a atuação do
analista neste campo, está voltada para o desenvolvimento da
aprendizagem de repertórios específicos, porém, nem sempre
diretamente relacionados à atividade física (CILLO, 2002).
O esporte de reabilitação engloba desde o trabalho com pacientes
hospitalizados ou em recuperação que necessitem de um suporte
para resgatar uma condição perdida após um acidente, lesão ou
doença temporária até o trabalho voltado para uma readaptação de
determinados sujeitos cujo evento anterior tenha ocasionado uma
mudança duradoura em sua condição de vida (a perda de uma perna
em um acidente de carro, por exemplo). É importante dizer que o
trabalho do analista do comportamento neste campo pode envolver
atletas lesionados ou a população em geral, sempre buscando a
adesão dos sujeitos ao tratamento.
Por fim, o esporte de recreação ou tempo livre é aquele cujas
atividades estão destinadas à população como um todo. Geralmente
o trabalho do analista do comportamento ocorre junto ao
planejamento e à execução de projetos do governo, ou de
instituições privadas, cujos objetivos são disponibilizar
recursos humanos e materiais para que a população participe de
atividades de lazer em espaços públicos.
Dos campos apresentados anteriormente o
esporte de alto rendimento tem sido o mais contemplado pela
literatura especifica. Basicamente os pesquisadores desta área
tem procurado testar e descrever procedimentos voltados para a
melhora do desempenho esportivo. Scala (2000) apresentou uma
revisão de literatura na qual evidenciou as técnicas mais
freqüentemente utilizadas e descritas em relatos de pesquisa
específicos da área de Psicologia do Esporte. São elas:
estabelecimento de metas, prática encoberta (também conhecida
como visualização), auto-fala e relaxamento. Na maioria das
vezes tais técnicas são aplicadas na forma de pacotes.
O estabelecimento de metas consiste
em um rearranjo de contingências a partir do planejamento de
treino e competição, na medida em que se percebe que os
objetivos anteriormente estabelecidos possuem poucas chances de
serem alcançadas. Em outras palavras busca-se estabelecer metas
graduais, para as quais se direcionam comportamentos que possam
efetivamente produzir os resultados esperados. Muito comum é
ouvir de um atleta ou de uma equipe que seu objetivo é “ser
campeão”, ou “chegar ao lugar mais alto do pódio”. Bom, para
chegar até lá é necessário estabelecer um plano que contemple
cada etapa até as finais da competição em disputa, sendo que
cada qual exige certos tipos de comportamentos específicos. Vale
dizer que quanto mais alto for o degrau objetivado maior será a
exigência para se alcançá-lo.
Um aspecto importante do estabelecimento
de metas é a referência. Ou seja, a meta a ser buscada deve ser
sempre estabelecida de forma clara, objetiva e em comparação com
os resultados anteriores do próprio atleta. Neste sentido a
comparação com os resultados de outro (s) atleta (s) podem ser
prejudiciais. Em uma modalidade que exige tantas habilidades o
progresso pode ser razoavelmente lento e, assim sendo, pode ser
que grandes desempenhos sejam o produto de anos de
aprimoramento. Assim, faz-se necessário empreender um
planejamento de curto, médio e longo prazo, durante os quais os
progressos da atleta sejam mensurados a partir da comparação de
seus próprios resultados ao longo do tempo. A comparação com os
resultados de outro (s) atleta (s) dificilmente levará em conta
os processos pelos quais o (s) outro (s) tenha (m) passado. Pode
ser frustrante e prejudicial, principalmente para iniciantes.
Talvez seja necessário, inclusive, desenvolver mais os
fundamentos da modalidade (habilidades básicas) para garantir a
classificação as fases finais, e posteriormente desenvolver
repertórios mais complexos, refinados e variados.
Tão importante quanto o planejamento é a
avaliação de desempenho. A comparação objetiva entre os números
aponta para os produtos do treinamento, assim como seus sucessos
e fracassos. Deste modo é possível reorganizar a preparação da
atleta, privilegiando seus pontos fracos e mantendo os fortes.
A prática encoberta (ou
visualização) refere-se ao treinamento através da imaginação, a
qual permite executar e corrigir desempenhos que em competições
não tem gerado bons resultados. Elabora-se um roteiro para o
atleta seguir de modo que ele possa “ver e rever” seu desempenho
preparando-se para situações inusitadas e/ou aprendendo a ficar
sob controle de situações relevantes na hora da performance.
De preferência pede-se ao atleta que fique atento à imaginação
de estímulos visuais, auditivos, táteis, olfativos... (por isso
o termo visualização não contempla todas as dimensões de
estímulos envolvidos; MARTIN, 2001). Há diversos aspectos
envolvidos na habilidade de imaginar. Ao contrario do que muitos
acreditam a imaginação pode ser treinada. E por diversos modos.
Um modo útil consiste em pedir ao atleta que feche seus olhos
(em um ambiente calmo e em posição confortável), e ler um
pequeno texto (uma ou duas páginas) o qual descreva parte da
situação de treinamento ou competição. A seguir solicita-se a
ele que avalie sua própria imaginação (Conseguiu acompanhar a
leitura do texto ou sua imaginação buscava “escapar”? Assistiu a
uma cena em cores ou preto e branco? Qual a velocidade da cena?
E quanto à perspectiva? Era ele um protagonista, coadjuvante ou
figurante da cena?). Estes aspectos serão úteis para o
planejamento do restante deste tipo de treino. Quanto mais
detalhes e vivacidade tiver a imaginação da atleta maiores serão
as chances de que esta estratégia funcione.
Outra tática útil para o treinamento da
imaginação diz respeito a olhar-se no espelho enquanto executa
movimentos comuns a sua pratica (de modo complementar assistir a
vídeos de seu próprio desempenho também pode complementar esta
tática). É importante prestar atenção não só aos estímulos
visuais, mas também as sensações advindas da musculatura e do
aparelho locomotor como um todo. Após um pouco de pratica
pode-se solicitar ao atleta que realize os movimentos de olhos
fechados. Pode ser um pouco mais difícil manter o equilíbrio,
porém fica mais fácil entrar em contato com as sensações intra
pele.
De forma resumida a pratica encoberta pode
ser utilizada em momentos específicos do treinamento (para os
fundamentos de maior dificuldade, por exemplo), antes e depois
de sua execução. A perspectiva sempre deve ser a do próprio
atleta e, na imaginação ao menos, o resultado deve ser o melhor
possível (não se recomenda imaginar erros). Alem de utilizar a
técnica durante os treinamentos o atleta também deve utilizá-la
na cama, antes de dormir, nas noites que antecedem apresentações
ou competições, e se quiser no trajeto para o local da prova (no
ônibus, por exemplo).
Relaxamentos podem ser utilizados
para diversos fins. Desde a regulação de estados fisiológicos
contrários ao excesso de tensão até para a discriminação de
sensações relacionadas à contração e relaxamento muscular
apropriados a desempenhos específicos. Trata-se de um conjunto
de técnicas que podem e devem ser utilizadas em conjunto com a
imaginação treinada. Basicamente estas estratégias resumem-se ao
controle de respiração de forma a afetar a freqüência cardíaca e
os demais processos fisiológicos envolvidos (ativação do sistema
nervoso autônomo, secreção hormonal, e demais processos
decorrentes). Não necessariamente um organismo muito relaxado
encontra-se em estado adequado para desempenhos motores e/ou
táticos. Assim, trata-se de um engano produzir relaxamento de
modo indiscriminado. A depender da tarefa envolvida exige-se um
determinado nível de excitação (ativação). Importante que cada
atleta aprenda a perceber os sinais (freqüência cardíaca e
tensão muscular, por exemplo) que sirvam como alertas para
diminuição, aumento ou manutenção do nível de ativação. Há uma
diversidade de técnicas e variações destas descritas na
literatura (MARTIN, 2001). Independente das variações utilizadas
um principio desta estratégia é que, uma vez concentrado na
técnica, o atleta evitara manter sua atenção sob controle de
situações pouco produtivas ou mais estressantes.
A auto-fala geralmente é utilizada
no auxílio da melhora de concentração (ficar sob controle de
aspectos relevantes da situação de treino ou de competição) ou
para o controle de respostas reflexas (palavras associadas a
estados emocionais adequados ao desempenho esportivo).
Importante dizer que se trata da escolha de palavras a serem
ditas pela própria atleta em momentos chave do desempenho. Estas
palavras são bastante úteis no encadeamento das ações de
rotinas. Funcionam como sinais para etapas do desempenho a
seguir e aumentam a concentração na medida em que mantém o
atleta focado no que fazer ao invés de quaisquer outros aspectos
do ambiente, presentes ou imaginados, que possam interferir na
rotina desempenhada. Uma vantagem extra da auto-fala
relaciona-se ao controle emocional: na medida em que o atleta
utiliza este recurso em treinamentos e passa a utilizá-lo nas
competições estará aproximando-se da chamada generalização de
desempenho. Ou seja, o ambiente de treinamento fica mais
parecido com o de competição (MARTIN E TKACHUK, 2001). Estes
mesmos autores afirmam que ainda é necessário realizar pesquisas
que possam investigar esta relação.
Como já foi dito estas técnicas
freqüentemente são utilizadas em conjunto e, por vezes, uma é
pré-requisito de outra (relaxamento como condição anterior para
o uso de prática encoberta, por exemplo). A auto-fala pode ser
encadeada também com o treino de imaginação na pratica encoberta
de forma a auxiliar o atleta a “decorar” sua rotina. De extrema
importância é o fato de que a escolha das palavras utilizadas
seja do atleta, de acordo com os “significados” prévios que
tenha e os objetivos do seu uso. Por exemplo: se a meta é
produzir relaxamento dificilmente a palavra “ação!” será eficaz.
Outro aspecto importante é que a palavra descreva minimamente o
que fazer, então a escolha de verbos pode ser útil (exemplo:
“girar”).
Finalmente um comentário que ainda deve
ser feito refere-se à adequação das estratégias de acordo com o
nível de desempenho da atleta. O uso das estratégias pode ser
adaptado tanto para a aquisição de habilidades especificas,
quanto para o refinamento destas (treinamento) ou manutenção
(competição). Neste sentido o uso das estratégias desde a
aquisição certamente facilitará sua prática nas etapas
seguintes, de treino e competição. Não existem estratégias
milagrosas, e sim treinamentos e técnicas realizados de modo
eficaz.
O leitor atento certamente poderá se perguntar o que a analise
do comportamento tem a dizer sobre as modalidades coletivas?
Skinner (1953) afirma:
“O comportamento do individuo
explica o fenômeno do grupo.” […]
“…se formos capazes de explicar o
comportamento de pessoas em grupos sem usar nenhum termo novo ou
sem pressupor nenhum novo processo ou principio, teremos
demonstrado uma promissora simplicidade nos dados.” [...](p286)
Neste sentido, trabalhar com modalidades coletivas implica em
um grau extra de trabalho no sentido de compreender não somente
as contingências controladoras de cada membro do grupo, mas de
compreendê-las entrelaçadas. Mais que isso: é papel do analista
do comportamento atuar no sentido da produção de cooperação a
partir destas contingências entrelaçadas. Obviamente estas
afirmações não esgotam o assunto, mas dão uma boa dica sobre
possíveis caminhos a seguir. A literatura especifica da analise
do comportamento aplicada ao esporte ainda encontra-se muito
carente de descrições de trabalhos com modalidades coletivas.
Fica aqui um convite aos interessados.
Uma boa dica para quem esta se iniciando na área ou pretende
fazê-lo é o livro Consultoria em Psicologia do Esporte:
orientações Práticas em Análise do Comportamento, do
professor Garry Martin, da Universidade de Manitoba, no Canadá.
A obra foi lançada no Brasil, em 2001, pelo Instituto de Análise
do Comportamento de Campinas (IAC), atualmente Instituto de
Terapia por Contingências.
Referencias Bibliográficas
Cillo, E.N.P. (2002).
Psicologia do Esporte: conceitos aplicados a partir da Análise
do Comportamento. Em Adélia Maria dos Santos Teixeira (org.)
Ciência do Comportamento: conhecer e avançar,
volume 1,
ESETec, Santo André/SP, 119-137.
De Rose Jr., D. (2000) O esporte e a
psicologia: enfoque do profissional do esporte. Psicologia do
esporte: interfaces, pesquisa e intervenção. Katia Rubio
(org.), Casa do psicólogo, São Paulo, 29-39.
Kazdin, A.E. (1978) History of behavior modification:
experimental foundations of contemporary research.
Baltimore: University Park Press, pp. 119-185.
Martin, G. L. (2001).
Consultoria em
Psicologia do Esporte: orientações Práticas em Análise do
Comportamento.
Traduzido por: Noreen Campbell de Aguirre. Título original:
Sport psychology consulting: practical guidelines from behavior
analysis. Campinas, Instituto de Análise do Comportamento.
Martin, G.L. & Tkachuk, G.A (2001)
Psicologia comportamental no esporte. Sobre Comportamento e
cognição. Vol. 8, pp. 313-336.
Rubio, K. (2000). O trajeto da Psicologia do Esporte e a
formação de um campo profissional. Em Kátia Rubio (org.),
Psicologia do Esporte: Interfaces, pesquisa e intervenção.
São Paulo: Casa do Psicólogo.
Rushall, B.S. & Siedentop, D. (1972). The development and
control of behavior in sport and physical education.
Philadelphia, P.A.: Lea & Febiger.
Scala, C.T. (2000).
Proposta de intervenção em psicologia do esporte.
Revista Brasileira de terapia comportamental e cognitiva.
Volume 2, número 1, 53-59. |