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O
comportamento humano é fruto da inter-relação entre a história
evolucionária da espécie (filogênese), a história comportamental
do indivíduo (ontogênese) e a história cultural do grupo ao qual
o indivíduo pertence. Estas três histórias podem ser
compreendidas através de um mesmo modelo causal: a seleção por
conseqüências. Só um esforço conjunto voltado para estes três
níveis de seleção por conseqüências pode permitir uma adequada
compreensão do comportamento humano. Estas proposições são
defendidas por Skinner ao menos desde a publicação do livro
Ciência e comportamento humano (Skinner, 1953). A
importância da cultura para a conformação do comportamento
humano, portanto, é enfatizada pelos analistas do comportamento
desde a década de 1950. Além disso, assume-se que “a manipulação
deliberada da cultura é em si mesma uma característica de muitas
culturas – um fato a ser explicado por uma análise científica do
comportamento humano. Propor uma mudança em uma prática
cultural, fazer a mudança e aceitar a mudança, são partes do
nosso objeto de estudo.” (Skinner, 1953, p. 427, itálico
acrescentado)
Skinner (1953), entretanto, igualou cultura a ambiente social
(porção do ambiente composta por outras pessoas) e a tomou
fundamentalmente como parte das explicações para o agir
individual e não como algo a ser explicado em si mesmo. O
interesse dos analistas do comportamento pelo estudo da cultura
como um conjunto de ações humanas que também deve ser explicado
parece ter ganhado destaque apenas após a explicitação do modelo
causal de seleção por conseqüências em três níveis no artigo
Seleção por conseqüências (Skinner, 1981). Neste artigo, a
evolução cultural é retratada claramente como um processo
análogo ao do reforço do comportamento operante. Apesar de
Skinner (1981) atribuir o estudo do nível cultural à
Antropologia, muitos analistas do comportamento passaram a
buscar compreender e integrar de modo mais explícito a evolução
cultural com a evolução do comportamento “individual”. Na década
de 1980, desta forma, surgem diversos trabalhos, eminentemente
teóricos ou interpretativos, perseguindo o objetivo de integrar
o que seriam as áreas de estudo da Psicologia e da Antropologia
(ou das Ciências Sociais). As fronteiras entre as Ciências
Humanas estavam sendo rompidas.
A
autora que possivelmente mais se destacou nestes esforços foi
Sigrid. S. Glenn, com suas propostas em torno do conceito de
metacontingência. Ao analisar o romance utópico Walden Two
(Skinner, 1948), Glenn (1986) introduziu o conceito de
metacontingência buscando esclarecer “a distinção traçada por
Skinner entre a seleção do comportamento operante em indivíduos
e a seleção de práticas culturais em sociedades.” (p. 2). Uma
metacontingência foi definida como “a unidade de análise que
descreve as relações funcionais entre uma classe de operantes,
cada operante com sua própria conseqüência imediata e única, e
uma conseqüência a longo prazo comum a todos os operantes na
metacontingência.” (Glenn, 1986, p. 2) Ao longo dos anos, esta
autora tem refinado constantemente os conceitos empregados para
lidar com a evolução cultural. Em 2004, por exemplo, uma
metacontingência passou a ser definida como uma relação
funcional entre 1) contingências comportamentais entrelaçadas
recorrentes (isto é, interações repetidas entre mais de uma
pessoa) que funcionam como uma unidade integrada e 2) um efeito
gerado por elas (produto agregado) que afeta a probabilidade de
repetição futura das contingências comportamentais entrelaçadas
(Glenn, 2004, p. 144).
Além de refinar o próprio conceito de metacontingência, Glenn
(1988, 1989, 1991) buscou integrar a Análise do Comportamento
com uma abordagem da Antropologia (o Materialismo Cultural de
Marvin Harris), propôs a adoção de uma terminologia próxima à da
Biologia Evolucionária para tratar da evolução cultural (Glenn,
2003) e sugeriu a distinção entre dois tipos de fenômenos
culturais: os que envolvem seleção cultural (metacontingências)
e os que não envolvem tal seleção (macrocontingências) (Glenn,
2004).
Os
novos conceitos propostos por Glenn e sua articulação teórica
com perspectivas de outras disciplinas científicas levaram a
muita discussão teórica, à tentativa de interpretação de
diversas questões sociais e atraíram a atenção de muitos
analistas do comportamento brasileiros (Todorov, 1987; Andery &
Sério, 1997; Todorov, Moreira & Martone, 2005; Andery,
Micheletto & Sério, 2005). Em 2005, por exemplo, realizou-se
junto ao encontro anual da Associação Brasileira de Psicoterapia
e Medicina Comportamental, em Campinas, um encontro de
pesquisadores (do Brasil, dos EUA, do Reino Unido e da Noruega)
interessados no tema da análise cultural (Think tank on
metacontingencies and cultural analysis) – a primeira de uma
série de reuniões semelhantes realizadas também em outros
países.
Até o início da presente década, porém, não havia nenhuma
tentativa sistemática de validar empiricamente os
conceitos de metacontingência e macrocontingência. Após muitos
anos de elaboração teórica e interpretativa, isso mudou: os
esforços dos interessados na análise da cultura passaram a se
concentrar em como estudar empírica e sistematicamente
este fenômeno e na elaboração de métodos adequados de
estudo. O Brasil destaca-se nesse novo cenário conduzindo as
primeiras tentativas de estudar metacontingências
experimentalmente. Valendo-se também de estudos da Psicologia
Social, pesquisadores brasileiros buscaram reproduzir em
laboratório as principais características de fenômenos
culturais: relações sociais, trabalho em grupo, geração do que é
chamado de produto agregado, substituição dos membros de um
grupo etc. (Vichi, 2004; Martone, 2007; Pereira, 2008). Os
primeiros trabalhos empíricos brasileiros têm estimulado a
pesquisa na área em diversas regiões do país (por ex. na UFPA,
UnB, PUC-SP e UFSC) e no exterior.
No
estudo da cultura pela Análise do Comportamento, o momento de
teorizar e interpretar sem muito embasamento empírico
sistemático parece ter ficado para trás. Os esforços têm se
voltado cada vez mais para questões metodológicas. O grande
desafio agora parece ser a construção de situações adequadas de
pesquisa. Além da construção de situações experimentais em
laboratório, tem-se discutido a possibilidade do uso de
experimentos naturais ou quase-experimentos para o estudo
sistemático da cultura (Pierce, 1991; Kunkel & Lamal, 1991;
Mattaini, 1996; Sampaio, 2008). Um exemplo de estudo que pode
ser visto como um quase-experimento é o de Machado (2007), que
analisou as relações comportamentais envolvidas na intervenção
cultural que levou ao respeito à faixa de pedestres em Brasília
a partir de meados da década de 1990. Machado (2007) coletou
dados estatísticos, entrevistas, notícias de jornais etc.
tentando reconstruir historicamente e analisar as relações
comportamentais envolvidas no surgimento das novas práticas
culturais relacionadas à travessia na faixa de pedestres.
Estudos como esse mostram a possibilidade de produzir
conhecimento empírico confiável e válido sobre o tema da cultura
mesmo sem o controle experimental possível em um laboratório.
Como Skinner (1953) enfatizou décadas atrás:
no campo do
comportamento humano, particularmente no planejamento cultural,
devemos reconhecer um tipo de complexidade em face da qual o
rigor de uma ciência de laboratório não pode ser mantido. Mas
isso não significa que a ciência não possa contribuir para a
solução de problemas cruciais. Está no espírito da ciência
insistir em uma observação cuidadosa, na coleta de informações
adequadas e na formulação de conclusões que contenham o mínimo
das ‘expectativas do pesquisador’ [wishful thinking].
Tudo isso se aplica tanto às situações complexas quanto às
simples. (p. 435)
As
perspectivas abertas pelo estudo empírico e sistemático da
cultura pela Análise do Comportamento ainda não foram
devidamente apreendidas. A única certeza é que novas pesquisas
sobre o tema só irão ampliar nossa compreensão e capacidade de
intervenção sob o mundo à nossa volta. Os pesquisadores
brasileiros interessados no tema podem bem estar no local e no
momento certo para dar importantes contribuições para estes
objetivos.
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