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No Gênesis bíblico, Deus teria criado a
diversidade dos seres vivos em sua forma atual. O criacionismo,
esse mito da criação do mundo, da vida e da diversidade dos
seres vivos, transfigura-se, tal qual camaleão, com terminologia
científica, como ciência da criação, modelo da complexidade
inicial e teoria do desígnio inteligente, com a finalidade de se
legitimar e contestar a teoria da evolução de Charles Darwin,
apresentada em seu clássico A origem das espécies,
publicado no ano memorável de 1859. Darwin demonstra em A
origem que os seres vivos se transformam, que não
surgiram em sua forma atual, e fundamenta sua tese em dois
processos, a variação casual, denominada de mutação
aleatória no neodarwinismo, a combinação das leis da genética
mendeliana com o darwinismo, e a seleção natural. As
variações casuais entre os indivíduos de uma espécie, como no
exemplo de Darwin das doze variedades de carvalho, que na época
eram consideradas espécies diferentes, embora somente uma ou
duas o fossem, fornecem o material para a seleção. As
variações que propiciam a sobrevivência dos indivíduos no
ambiente em que vivem são selecionadas e preservadas, as
prejudiciais são eliminadas. A seleção é cumulativa e lenta e,
com o tempo, um longo tempo, dá origem a novas espécies, sendo,
portanto, criadora.
Em sentido amplo, pode-se dizer que Skinner plasma o
modelo de seleção por conseqüências no processo de seleção de
Darwin e na lei do efeito de Thorndike, lei que, em grande
parte, foi devida ao darwinismo. Na expressão ‘seleção por
conseqüências’, ‘seleção’ deve-se ao processo de seleção, e
‘conseqüência’, à lei do efeito. Em seu elogio ao artigo de
Skinner, Seleção por conseqüências, Richard Dawkins, o
eminente neodarwinista, um dos intelectuais mais aclamados da
atualidade, disse, em Replicadores, conseqüências e
atividades de deslocamento, que o acha “admirável”. E disse
mais: disse que a expressão ‘seleção por conseqüências’ é uma
boa frase para caracterizar os processos darwinistas. Sendo
assim, as variações selecionadas são as que produzem
conseqüências com valor de sobrevivência para os indivíduos,
como quer Darwin, ou, para os genes, como quer Dawkins. Já as
prejudiciais produzem conseqüências sem valor de sobrevivência
para os indivíduos ou genes.
Skinner explica a origem dos comportamentos com base
no modelo de seleção por conseqüências e, conseqüentemente,
polemiza com o modelo da Mente criativa, a versão semi-sagrada
da Mente, humana, mas ainda de origem Divina, que, desde tempos
remotos, ocupa o lugar dessa explicação. O modelo de seleção por
conseqüências carrega consigo o conflito com o criacionismo e
com a versão semi-sagrada da Mente. Se até hoje o darwinismo, um
século e meio depois de seu aparecimento, é atacado por
teólogos, religiosos e filósofos, por quantos séculos o modelo
de seleção por conseqüências será submetido a ataques da mesma
natureza? Com certeza não estaremos mais aqui para presenciar.
Mas, em que sentido Skinner critica o modelo da
Mente criativa na explicação do comportamento? Darwin mostrara
em A origem que o advento de novas espécies não
obedece a nenhuma Causa Final, a nenhum Plano, Finalidade ou
Propósito de um Criador. Não existe uma Mente Sagrada, a Mente
do Criador, que teria criado as espécies de acordo com seu
Propósito ou Finalidade. Dawkins disse em seu livro A
escalada do monte improvável que a variação é aleatória, mas
que a seleção é não-aleatória, e que, por essa razão, o
darwinismo não pode ser compreendido somente como uma teoria de
puro acaso. Isso quer dizer que é o processo de seleção que
explica o curso da evolução, seu propósito ou finalidade. Não
há, portanto, necessidade de se postular um Criador. Skinner
apóia uma tese similar quando defende o processo de seleção
contra a Mente criativa: não há nenhuma Causa Final, nenhum
Plano, Finalidade ou Propósito de uma Mente criativa na
explicação do comportamento. No entanto, nem por isso se deve
pensar que ele tenha apoiado a explicação do comportamento
baseada na causalidade mecânica (push-pull) da física do
século XIX, que na psicologia é bem ilustrada, por exemplo,
pelos conceitos de reflexo e fisiologia do reflexo e pela
psicologia estímulo-resposta. O modelo de seleção por
conseqüências refuta o modelo da Mente criativa por se opor,
entre outras razões, às Causas Finais, sem que, por assim fazer,
se comprometa com causas mecânicas. Nem o Teleologismo nem o
mecanicismo encontram abrigo no modelo de seleção por
conseqüências (em uma versão totalmente profana da mente, uma
que inscreva sua origem completamente na natureza, deve-se
escrever ‘mente’ e ‘teleologismo’, com iniciais minúsculas).
O modelo de seleção por conseqüências dá origem a
novos comportamentos de modo similar àquele que o processo de
seleção natural dá origem a novas espécies. Uma variação
comportamental pode produzir uma conseqüência de valor para o
organismo. Quando isso acontece, a variação é selecionada,
podendo-se dizer que há um novo tipo de comportamento no mundo.
Mas a variação oferece várias possibilidades de seleção. Por
exemplo, pode-se ensinar uma criança a falar português,
tupi-guarani, árabe, ou qualquer outra língua, selecionando-se
variações de um amplo espectro de sons que ela é capaz de
produzir desde os seus anos mais tenros. O modelo de seleção por
conseqüências gera novas “espécies de comportamentos”. Por
analogia, pode-se dizer que, se Darwin escreveu A origem das
espécies, Skinner escreveu A origem dos comportamentos.
O conceito de origem do comportamento tem um segundo
significado. Uma coisa é explicar a origem de novos
comportamentos com base na seleção de variações, outra é
explicar a origem das variações que são o material da seleção.
Aqui se destacam os conceitos de arranjos acidental e deliberado
de condições. Skinner relembra-nos, por um lado, que o arranjo
acidental de moléculas mais simples deu origem a moléculas mais
complexas (as variações características da vida). Baseando-se no
neodarwinismo, relembra-nos que o arranjo acidental de genes deu
origem às variações fenotípicas dos organismos. Argumenta,
então, que novos comportamentos podem ser gerados pelo arranjo
acidental de contingências ambientais. O psicólogo americano
diz, por outro lado, que os cientistas inventam novas moléculas,
bem como alteram material genético, com o arranjo deliberado de
condições que provavelmente não aconteceriam acidentalmente. E
diz, enfim, que o arranjo deliberado de contingências ambientais
pode gerar comportamentos novos que provavelmente também não
ocorreriam por acidente. Mas, note-se bem, nos três casos, seja
com arranjos acidentais ou deliberados, os resultados são
imprevisíveis. Com efeito, pois se fossem previsíveis, seriam
triviais, não seriam originais. Referindo-se ao comportamento,
eis o que ele diz em Tecnologia do ensino: “não podemos
ensinar comportamento original, desde que não seria original se
fosse ensinado, mas podemos ensinar o estudante a arranjar
ambientes que maximizem a probabilidade de que ocorram
comportamentos originais” (1968, p. 180). A Mente do Criador
sofre mais um golpe, agora, na explicação da vida, e a Mente
criativa, atacada em seu último reduto, agoniza em seu
dilaceramento mais profundo.
Em textos como Criando o artista criativo e
Uma leitura sobre tendo (having) um poema, o pensador
americano afirma que descobertas científicas e invenções
artísticas e literárias podem ser explicadas em termos do
arranjo acidental de contingências e vincula sua discussão sobre
criatividade ao livro A origem das espécies que “é
essencialmente um estudo sobre originalidade” (Criando,
1970/1999, p. 385). Em Tecnologia do ensino, descreve um
arranjo deliberado de contingências ambientais que enfatiza a
construção de metáforas, a leitura de um autor do ponto de vista
do leitor, o afrouxamento da leitura precisa de textos, o
afastamento de comportamentos reprodutivos e o envolvimento com
ambientes e atividades plenos das finalidades imaginadas, por
exemplo, se quiser ser músico, viva em ambientes musicais, ouça
música, leia sobre música, fale sobre música, sonhe com música,
transforme sua vida em música. Espera-se, evidentemente, que o
arranjo deliberado dessas contingências propicie o advento de
comportamentos originais. Porém, não é possível predizer quais
serão esses comportamentos, pois pode ser, por exemplo, que a
pessoa que respira música, ao final não aprenda sequer a
assobiar! No entanto, caso apresente uma “variação
comportamental musical”, sai-se bem no piano, na composição
musical, ou na história de música, o processo de seleção pode
entrar em cena. E, embora as variações estejam sempre à
espreita, tornando impossível descartar completamente
conseqüências imprevistas, efeitos perversos e possibilidades
improváveis, pode-se, com alguma previsão e controle, modelar um
comportamento original, cuja originalidade é, de início,
fenômeno da variação, e depois, da seleção, e trazer ao mundo um
compositor ou um historiador ou um pianista como nunca se viu!
É possível intervir no processo de seleção. Com
efeito, nos casos dramáticos das práticas culturais atuais que
levam à exaustão dos recursos naturais, ao aquecimento global, à
poluição ambiental e superpopulação, bem como à ameaça sempre
presente do holocausto nuclear, pode-se esperar que, por meio do
arranjo deliberado de novos ambientes educacionais, surjam
práticas culturais inéditas, sem previsão e controle de quais
efetivamente sejam, que tenham condições de interferir no
processo de seleção das práticas deletérias atuais. Mas, então,
novamente o processo de seleção pode vir à cena para, em
princípio, com previsão e controle, modelar e dar forma final às
práticas que forem mais adequadas àquela finalidade.
Evidentemente, pode-se também planejar práticas culturais e
sugeri-las às comunidades interessadas como variações a serem
submetidas ao processo de seleção com a finalidade de verificar
se têm ou não valor no combate às atuais práticas nocivas às
culturas.
A origem das espécies é um estudo sobre
originalidade, foi o que Skinner disse. A obra de Skinner, A
origem dos comportamentos, é também um estudo sobre
originalidade. Um explica a criação de novas espécies, o outro
explica a criação de novos comportamentos. Darwin e Skinner
elaboraram teorias da criação, mas os agentes da criação são o
acaso e a seleção. Como Dawkins ressaltou, o acaso é mutação
aleatória, mas a seleção é não-aleatória. Há no modelo de
seleção por conseqüências um elemento de desordem: o acaso
criador. Mas há também um elemento de ordem: a seleção
criadora do que tem valor, do que ajuda a sobreviver, do que
é bom, e até do que inútil, o belo, que depende de nós.
Se do acaso surgir Afrodite, por que não modelá-la? Os destinos
do acaso dependem de mãos in totum mergulhadas em
variações. Existe uma imprevisibilidade imanente no
modelo de seleção por conseqüências. |