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Nas décadas de 50 e 60, alguns trabalhos
com humanos, utilizando técnicas e princípios operantes, foram
publicados em meio a muitos artigos de pesquisa básica com
organismos infra-humanos, na revista Journal of the
Experimental Analysis of Behavior (Flanagan, Goldiamond e
Azrin, 1958; Ayllon e Michael, 1959; Ayllon e Haughton, 1962).
Os trabalhos em clínica – ainda incipientes e carentes de um
modelo psicoterapêutico bem caracterizado – eram aglutinados sob
a denominação de Modificação de Comportamento, termo consolidado
por Bandura em seu livro Princípios de Modificação de
Comportamento (1969). Em 1968, a pressão para publicação da
já vasta produção aplicada, deu origem a uma nova revista – a
versão aplicada da JEAB, chamada Journal of Applied Analysis
of Behavior. Apresentava artigos de aplicação sim, mas suas
páginas não registravam trabalhos tipicamente clínicos, pois a
linha editorial da Revista punha ênfase em trabalhos
experimentais, não obstante serem conduzidos com humanos. O nome
Modificação de Comportamento – inicialmente associado ao modelo
operante – não sobreviveu.
Paralelamente, crescia um movimento,
liderado essencialmente por psiquiatras, cujos nomes mais
conhecidos foram Wolpe, Lazarus, Yates, Eysenck, Rachman, entre
outros, os quais adotaram a terminologia Terapia Comportamental
(nome, curiosamente, apresentado pela primeira vez por Skinner),
mas que adotavam outro modelo conceitual, influenciado,
basicamente, por Hull e Pavlov (Wolpe, 1958). O que havia em
comum entre os dois movimentos? A adoção da aprendizagem como
conceito central para a compreensão e intervenção sobre os
comportamentos humanos mal adaptados. No entanto, as diferenças
entre as múltiplas teorias de aprendizagem são tão radicais, que
é ingênuo supor que as Terapias Comportamentais, por adotarem um
nome conceitual comum, são próximas entre si. De qualquer
maneira, o grupo que adotou o termo Terapia Comportamental
estava trabalhando em consultório (ou pelo menos em clínicas
universitárias), com problemas comportamentais que atormentavam
os seres humanos, ou seja, estava propondo um modelo clínico,
que se oferecia como alternativa aos modelos psicodinâmicos que
prevaleciam à época. Foram ágeis e eficientes e, em poucos anos,
várias revistas, sob sua linha editorial, passaram a ser
publicadas, trazendo artigos sobre conceitos básicos para a
prática clínica e sobre pesquisas relacionadas com as técnicas
psicoterapêuticas recém desenvolvidas (Behavior Therapy,
Behaviour Research and Therapy, Behavior Therapy and
Experimental Psychiatry são alguns exemplos bem
representativos). O nome Terapia Comportamental – inicialmente
associado ao conceito de inibição recíproca – sobreviveu.
O desenvolvimento da Terapia
Comportamental no Brasil (a partir deste ponto, passo a usar tal
termo para aconchegar os diversos matizes conceituais e os
arsenais de técnicas que compõem a “família” de terapias
comportamentais) foi inicialmente tímido, muito mais por
pressões advindas dos próprios comportamentalistas. Alguns
consideravam prematura a passagem do conhecimento
experimentalmente sistematizado em situações controladas para a
prática clínica, já que esta estava desprovida de qualquer
condição de controle experimental das variáveis em operação. Era
incapaz, portanto, de ela própria avaliar a fidedignidade das
relações causais que se processavam no contexto psicoterapêutico.
É notável reconhecer que terapeutas de outras abordagens, em
particular no contexto universitário, eram mais acolhedores com
a recém chegada Terapia Comportamental, se bem que a ela
reservassem um reduto razoavelmente bem delimitado, qual seja o
de terapia para “problemas mais simples”, se referindo a
tratamentos de gagueira, enurese noturna, tiques, fobias etc.
Lembro-me, quando em 1970 oferecemos – sob a coordenação da Dra.
Maria do Carmo Guedes – um curso optativo de Modificação de
Comportamento para alunos de Psicologia da PUC-SP, do comentário
feito pela Dra. Ana Maria Poppovic (Diretora da Clínica-Escola),
com um sorriso de boas-vindas: – Então, são vocês os pragmáticos
do Behaviorismo!?...
Outros desanimaram com a ausência de um
modelo de atuação clínico bem definido (o movimento
comportamental clínico buscava sua identidade e ainda carecia de
uma caracterização) e se bandearam para outras abordagens.
Restaram, afinal, poucos, os quais se atreveram e se mantiveram
na árdua tarefa de desenvolver uma Terapia Comportamental no
Brasil e foram em frente, insistindo na atuação clínica, mesmo
que sob diversas filiações conceituais (Guilhardi, 2003). Dessa
atuação diversificada, resultaram algumas variantes, duas das
quais são conhecidas como Terapia Comportamental e Terapia
Cognitivo-Comportamental (mais recentemente, surgiram a Terapia
Construtivista, a Terapia Analítico-Comportamental e a Terapia
por Contingências de Reforçamento, para citar as mais
conhecidas).
Em 1991, Bernard Rangé teve a coragem e o
discernimento de criar uma Associação Brasileira, a qual, menos
preocupada com as diferenças entre formas de trabalhos em
clínica, se propunha a unir, dentro de uma mesma organização,
aqueles que tinham algumas práticas e conceitos em comum. Aliás,
Range, em colaboração com Lettner, já havia ensaiado um passo
prévio, publicando o primeiro livro brasileiro de Terapia
Comportamental, o qual causou um estimulante impacto no ambiente
comportamental da época (Rangé e Lettner,1988). (Esse livro
ainda merece uma justa análise histórica). O nome proposto por
Rangé, – Associação Brasileira de Terapia e Medicina
Comportamental –, em seguida adotado pela comunidade de
terapeutas comportamentais, revela por si o ambicioso e
destemido escopo da recém criada Entidade. Foi um passo
histórico enfatizar semelhanças e não diferenças. A partir de
então, o sucesso foi encorajador.
Desde sua fundação, a Associação repetiu
anualmente – sem nenhuma omissão – o Encontro Anual e, a partir
de 1997, iniciou a publicação da coleção Sobre Comportamento
e Cognição. Passou também a publicar a Revista Brasileira
de Terapia Comportamental e Cognitiva. A participação de
estudantes e profissionais nos Encontros anuais cresceu
notavelmente, atingindo até 2300 participantes num único evento.
Foi realizado no Brasil o 2º Encontro Internacional de Terapia
Comportamental em conjunto com a Association for Behavior
Analysis (ABA), cujo sucesso confirmou a absoluta aprovação
dos diretores da ABA ao trabalho que vinha sendo
realizado pela ABPMC.
O mais importante, porém, é que os
comportamentalistas encontraram um contexto onde passaram a
expor seus trabalhos e a se influenciar reciprocamente. As
oportunidades que as atividades propostas pela ABPMC criaram
para o desenvolvimento conceitual e aplicado – em associação com
pesquisadores básicos e professores – alçaram a Terapia
Comportamental (não importando seus subtítulos) a um nível no
qual ela contribui, indiscutivelmente, para o desenvolvimento da
área comportamental aplicada, em particular, e para o
crescimento da Psicologia como um todo.
A Terapia Comportamental é um movimento
alerta, que se transforma e se desenvolve conceitual e
tecnicamente; que presta serviços relevantes para a comunidade;
que paulatinamente cria uma nova proposta de serviço
psicológico; que desenvolve e propõe práticas de ensino que
maximizam a qualidade de formação de profissionais da sua área.
Não ouso afirmar que a ABPMC é a “causa”
de todo o desenvolvimento da área comportamental apontado, mas
certamente foi um agente catalisador de todo o processo de
crescimento descrito. Há necessidade de mérito maior?
Referências
Ayllon, T. e Haughton, E. (1962).
Control of the behavior of
schizophrenic patients by food. Journal of the Experimental
Analysis of Behavior, 5, 343-352.
Ayllon, T. e Michael, J.
(1959). The psychiatric nurse as a behavioral engineer.
Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 2,
323-334.
Bandura, A. (1969).
Principles of Behavior Modification. Holt, Rinehart and
Winston, New York (publicado no Brasil em 1979).
Flanagan, B., Goldiamond, L. e
Azrin, N. H. (1958). Operant stuttering: the control of
stuttering behavior through response-contingent consequences.
Journal of the Experimental Analysis of Behavior 1, 173 –
179.
Guilhardi, H. J. (2003). Tudo se deve às
conseqüências... Disponível em: http//www.terapiaporcontingencias.com.br>
(não publicado).
Lettner, H. W. e Rangé, B. P.
(Eds.) (1988). Manual de Psicoterapia Comportamental.
Ed. Manole, São Paulo.
Wolpe, J. (1958).
Psychotherapy by Reciprocal Inhibition. Stanford University
Press, Stanford. |