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"Os principais problemas enfrentados hoje pelo mundo só poderão ser resolvidos

 se melhorarmos nossa compreensão do comportamento humano" (Skinner, 1974, p.8)

 

 

Programação XVIII Encontro ABPMC - 2009

MESA REDONDA

Título da mesa: Ciência como comportamento do cientista
Coordenador: José Antonio Damasio  Abib, Universidade Federal de São Carlos
Resumo: O que é ciência? Ao longo da história e filosofia das ciências podemos encontrar várias tentativas de responder a essa questão, seja buscando os fundamentos do conhecimento científico, suas condições de possibilidade, ou mesmo seus critérios de demarcação. De um lado, temos a defesa de que a ciência é um conhecimento sui generis: ciência é episteme e não doxa; é conhecimento racional, verdadeiro, objetivo, neutro e sistemático, e não conhecimento irracional, falso, subjetivo, parcial e errático. Contra essa “assepsia” do conhecimento científico há críticas oriundas da história, filosofia e sociologia das ciências que mostram que o conhecimento científico não difere de maneira qualitativa de outras formas de conhecimento. Além do mais, trata-se também de um conhecimento atravessado por interesses sociais, econômicos e pessoais seja dos próprios cientistas; seja das agências de fomento que os financiam; seja do mercado que, não raro, ditam as diretrizes da pesquisa científica. Como o Behaviorismo Radical se situa nesse debate? A pergunta é legítima, pois o behaviorismo skinneriano é uma filosofia da ciência. Skinner disse que ciência é comportamento dos cientistas. Isso significa que ciência é, antes de tudo, atividade humana. Significa também que essa atividade é influenciada por uma multiplicidade de variáveis, cuja descrição passa a ser tarefa de uma filosofia da ciência. A presente mesa parte dessa definição skinneriana de ciência tentando analisar algumas das variáveis que participam do controle do comportamento do cientista. Em primeiro lugar, examina-se o chamado mito da neutralidade científica à luz dos conceitos de tacto e mando. Defende-se, nesse caso, que em uma ciência contemporânea, a função do comportamento verbal do cientista define-se mais por mandos que por tactos, uma vez que seu comportamento é função de vieses pessoais. Em segundo lugar, analisa-se a interpretação skinneriana do processo de construção do conhecimento científico fundamentada em conceitos como os de serendipidade, criatividade e liberdade. Argumenta-se, aqui, que tal interpretação está mais alinhada com modelos de ciência atuais, afastando-se do modelo lógico-racional da ciência moderna. Por fim, é apresentado um estudo de caso do comportamento de Skinner durante o período de formulação do conceito de operante. A partir desse recorte procura-se mostrar como contingências aparentemente irrelevantes do contexto institucional de Harvard foram decisivas na modelagem do comportamento científico de Skinner. Por fim, conclui-se que essas análises sugerem que a filosofia da ciência skinneriana aproxima-se de concepções contemporâneas de ciência e sociologia da ciência.
 
Autor(es) apresentação 1 :
Carlos Eduardo  Lopes, Universidade Estadual de Maringá
Resumo apresentação1 : Uma análise da neutralidade científica à luz dos conceitos de tacto e mando. Um dos cânones da ciência moderna é o ideal de neutralidade científica. Segundo essa concepção, o conhecimento científico é objetivo, o que quer dizer que deve eliminar interferências subjetivas, entendidas, aqui, como os interesses e vieses pessoais do cientista. Institui-se assim um pensamento dicotômico que perpassa toda ciência moderna: de um lado temos a ciência, a objetividade, a neutralidade, a imparcialidade, a certeza, a verdade; e de outro, o senso comum, a subjetividade, a parcialidade, a incerteza, a opinião. A filosofia da ciência contemporânea é crítica explícita desse modelo de ciência moderna. Nessa nova concepção, o fazer ciência é considerado uma atividade humana, e como tal, está sujeita a todos os vieses típicos de qualquer atividade humana, como interesses teóricos, econômicos, políticos, etc. Dessa maneira, o ideal de neutralidade passa a ser considerado pela filosofia da ciência contemporânea como um mito. Ao mesmo tempo em que os textos iniciais de Skinner têm grande afinidade com o modelo de ciência moderna, há propostas skinnerianas que parecem se alinhar com concepções contemporâneas de ciência. Um exemplo dessas propostas “pós-modernas” encontradas no texto skinneriano é o tratamento da ciência como comportamento do cientista, sobretudo como comportamento verbal. O presente trabalho pretende examinar o ideal de neutralidade científica à luz das categorias do comportamento verbal, mais especificamente, o tacto e o mando. No Verbal Behavior, tacto é definido como um operante verbal cuja resposta é controlada por um estímulo antecedente não-verbal e mantida por uma conseqüência reforçadora generalizada. Já, mando é um operante verbal cuja resposta é controlada, predominantemente, por estados motivacionais, e mantida por reforçadores específicos. Se transpusermos essas definições para a análise do comportamento do cientista teríamos na ciência moderna um cientista que emite tactos, o que fundamentaria a neutralidade e objetividade do conhecimento científico. Já no modelo de ciência contemporânea, ao partirmos da crítica à neutralidade científica, encontraríamos um cientista que emite mandos. Ora, a ciência moderna parece ser o reduto dos tactos em sua forma mais “pura” ou “objetiva”, e uma vez que esse modelo de ciência pode ser criticado, cabe perguntar: haveria ainda espaço para esse tipo de operante verbal?
 
Autor(es) apresentação 2 :
Carolina  Laurenti, Universidade Federal de São Carlos
Resumo apresentação 2 : Produção de conhecimento científico: Imprevisibilidade, novidade e liberdade. Skinner disse que ciência é comportamento dos cientistas. Mais especificamente, podemos dizer que ciência, na perspectiva skinneriana, é uma prática cultural. Um dos critérios importantes para o estabelecimento de uma prática cultural é a transmissão da prática a gerações futuras. Isso remete necessariamente a uma discussão sobre o ensino de comportamentos científicos. Como ensinar comportamento científico a outras gerações? Quais tipos de cientistas queremos formar? Afinal de contas, quais comportamentos definem prática científica? O objetivo deste trabalho é esboçar um encaminhamento para essas questões a partir da discussão skinneriana do contexto de produção do conhecimento científico. Uma análise dos textos skinnerianos sugere que uma educação de comportamentos científicos que contribuam para a sobrevivência da ciência, enquanto prática cultural, é uma educação que promova a criatividade e a liberdade. Uma educação para a criatividade deve criar um contexto que aumente as chances de ocorrência de variações comportamentais. Trata-se, pois, de um contexto que simula o acaso, estimulando os acidentes, os “desvios”, as idiossincrasias que acontecem no comportamento dos indivíduos. Isso fica claro, quando Skinner destaca a serendipidade – o conjunto de “acidentes úteis” que podem ocorrer durante a realização de uma pesquisa – como uma das condições que contribuem para o desenvolvimento de pesquisas originais. Sob esse prisma, o ambiente da pesquisa é aberto no sentido de que permite a ocorrência de novidades e variações imprevisíveis, cuja seleção pode acarretar na elaboração de um conceito, lei, método ou teoria científica original. Uma educação para a liberdade é aquela voltada para contextos menos coercitivos, pois, segundo Skinner, em contingências altamente reforçadoras é possível maximizar combinações raras de variáveis ambientais. Com efeito, formar cientistas é formar indivíduos criativos e livres. Essas reflexões podem ser estendidas à Análise do Comportamento. Ora, se a Análise do Comportamento é ciência do comportamento, e se ciência é uma prática cultural, então a Análise do Comportamento é uma prática cultural. Assim, cabe indagar: como a Análise do Comportamento tem disseminado a ciência do comportamento? Quais comportamentos ela tem modelado e mantido? Em outras palavras, os analistas do comportamento têm promovido um contexto que encoraja a novidade e a liberdade do analista do comportamento? Ou incentiva a reprodutibilidade, tolhendo a variação por meio da punição de comportamento “desviante”? A Análise do Comportamento não deveria se furtar a essas reflexões, uma vez que está em jogo sua própria sobrevivência enquanto prática cultural.
 
Autor(es) apresentação 3 :
Robson Nascimento  Cruz, Universidade Federal de Minas Gerais
Resumo apresentação 3 : O controle social da ciência e o comportamento do cientista. O controle social da ciência e seus efeitos sobre o comportamento do cientista têm sido, nas últimas décadas, tema de interesse crescente de áreas como a história da ciência, sociologia da ciência e filosofia da ciência. Skinner ao discutir o comportamento do cientista afirma ser esse um dos fenômenos comportamentais mais complexos e de difícil investigação, contudo, como todo comportamento, passível de uma análise funcional. Desta maneira, afirma, entre outras coisas, que seu comportamento científico era reforçado pela descoberta de padrões de regularidade que emergiam de suas pesquisas empíricas. No presente trabalho, considera-se que identificar as consequências que controlam o comportamento do cientista na situação experimental é algo fundamental, mas, contudo, insuficiente para uma explicação complexa desse comportamento. Isto porque o comportamento do cientista parece ser afetado por outras contingências, além daquelas presentes na situação experimental. Tendo em vista esse argumento, buscamos a partir de disciplinas externas à análise do comportamento, mas em diálogo com essa, uma interpretação que objetiva explicar o efeito de variáveis sociais sobre o comportamento do cientista. Para isso, realizamos um estudo de caso da história comportamental de Skinner a partir das descrições biográficas e autobiográficas desse cientista, com ênfase nos relatos acerca das contingências experimentadas por ele no contexto acadêmico/institucional de Harvard no início de sua carreira acadêmica, entre os anos de 1928 e 1935, período que corresponde à formulação do conceito de condicionamento operante. Um contexto institucional onde predominava contingências de reforçamento positivo e a quase ausência de contingências aversivas, algo representado pela não imposição de temas de pesquisas e uso de teorias e metodologias tradicionais; o fato de Skinner estar vinculado durante grande parte desse período ao departamento de fisiologia e não de psicologia; e o pouco interesse e desconhecimento dos estudos em psicologia animal, são alguns dos elementos identificados e utilizados em nossa análise. Com isso, interpretamos como contingências aparentemente irrelevantes podem propiciar conseqüências capazes de modelar um comportamento científico que apresenta alto nível de variabilidade comportamental em curto período de tempo. No caso de Skinner, uma nova maneira de explicar e estudar o comportamento reflete essa variabilidade comportamental.

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